sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Insolvências

Este ano, as insolvências em Portugal aumentaram mais de sessenta por cento comparativamente com o ano passado. Famílias e empresas que não conseguiram sobreviver a 2012. As que conseguiram sobreviveram terão dificuldades em repetir a proeza no ano que se avizinha.
A receita do Governo mata a economia. As grandes empresas, graças a expedientes como isenções fiscais e apoios do Estado, não entram nesta negra equação, assim como a banca. O Estado serve para a sua protecção. O aumento da carga fiscal associado a à quebra exponencial do poder de compra não permitem que muitas empresas de pequena e média dimensão consigam sobreviver. A falência de muitas famílias é indissociável da falência dessas pequenas e médias empresas.
A receita do Governo falha sob todos os pontos de vista. Porém, os ventos de mudança não se sentem e a julgar pelas palavras de mais um oráculo adorado pela comunicação social - Marques Mendes - nada de mal acontecerá ao Governo durante o ano que se avizinha. Que Deus nos livre que acontecesse uma desgraça dessa natureza. Contentem-se com uma remodelação. E já vão com sorte.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Natal que merecíamos

Terá sido este o Natal que merecíamos? Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro, acredita que não, acredita que "este não foi o Natal que merecíamos".
Depende. Cada caso é um caso. Se pensarmos na persistência do erro que se traduz na escolha reiterada dos mesmos partidos políticos de quatro em quatro anos, enquanto se passa o tempo restante alheado, eternamente, alheado do que se passa em redor, talvez o Natal tenha sido o expectável, eventualmente não o merecido, mas o expectável.
Dir-se-á que a crise deixa pouca margem para a construção de um outro país. Mais uma vez não será bem esse o caso. De resto, atente-se a alguns exemplos, até mesmo no seio da União Europeia, de países que escolheram outros caminhos diametralmente opostos ao do masoquismo.
Por aqui, escolhe-se o caminho da dor, esperando uma redenção qualquer que nunca chegará. Por aqui, sentimo-nos responsáveis por ter vivido acima das nossas possibilidades, enquanto a casta (económica, financeira e política) passa pelos pingos da chuva. Por aqui, brinca-se à justiça e com a justiça. Por aqui assiste-se a atropelos à democracia num clima de serenidade. Por aqui sofre-se em silêncio ao mesmo tempo que a miséria nos acossa. Por aqui escolhe-se a inércia aliada, como sempre, à ignorância promovida por boa parte da comunicação social. Por aqui ainda sorrimos quando ouvimos histórias de corruptos e de chicos-espertos.
"Este não foi o Natal que merecíamos". Mas terá sido o Natal expectável.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O interesse nacional

Não nos equivoquemos, o interesse nacional tão do agrado de Paulo Portas, ministro dos Negócios Estrangeiros, e Cavaco Silva, Presidente da República, não terá exactamente o interesse de todos nós.
Com efeito, o interesse nacional que justifica tudo em tempos de excepção, inclusivamente atropelos à Lei, associado à ideia de inevitabilidade confere a estes senhores uma espécie de salvaguarda das suas posições, ao mesmo tempo que pretende justificar o verdadeiro roubo que se avizinha.
Ora, o Presidente da República voltou a não surpreender, deixando passar a possibilidade de enviar o Orçamento de Estado para fiscalização preventiva. Se lhe perguntarem a razão, aposto que a mesma se prende com o interesse nacional.
Sejamos realistas, o interesse nacional não é o mesmo dos desempregados, dos pensionistas, dos trabalhadores. O interesse nacional é o da banca, sobretudo da banca e, por inerência, dos mercados. Por outro lado, o interesse nacional parece indissociável do interesse alemão. Estes são os verdadeiros interesses que subjazem a todas as decisões tomadas por estes senhores e, como todos já percebemos, a pusilanimidade não se encontra arredada destas mesmas questões.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Negócios

Portugal está à venda. Pelo menos no que diz respeito a alguns sectores estratégicos. Terá sido essa uma das contrapartidas resultante da assinatura do acordo com a famigerada Troika.
Pelo caminho assistimos às negociatas entre os membros do Governo e sector empresarial. O caso da venda da TAP cheira mal por todos os lados, mas parece que já estamos acostumados a viver entre os odores mais desagradáveis.
De resto, é curioso ver a movimentação dos mesmos protagonistas em torno dos negócios mais opacos. Neste particular, Miguel Relvas movimenta-se com relativa facilidade.
Enquanto os cidadãos procuraram sobreviver num país com cada vez menos condições, os negócios vão levando o seu curso normal - para os nossos parâmetros - entre a obscuridade e o prejuízo do país.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Ainda o 14 de Novembro

Depois dos episódios de violência junto à Assembleia da República e que se espalharam por várias zonas de Lisboa, ainda há quem esteja a ser chamado ao DIAP por suspeitas de ter desencadeado os incidentes.
Quanto à actuação da polícia, tudo parece ter corrido pelo melhor, com o primeiro-ministro, líder do maior partido da oposição e Presidente da República a corroborarem essa tese.
Esta semana soube-se que uma activista foi constituída arguida por suspeita de ter arremessado pedras. A pessoa em questão aparece em alegadas imagens da manifestação munida de pedras, ou será de uma mera máquina fotográfica?
O dia 14 de Novembro ficou marcado não só pelo descontentamento, pela greve geral, pelos incidentes, bem como pela actuação desproporcionada da polícia e da forma torpe como se atropela os direitos dos cidadãos.
O dia 14 de Novembro representou mais uma machadada na democracia, e incrivelmente continua a fustigar o sistema democrático, isto perante a passividade de um país à deriva, sujeito à arrogância recrudescente do Governo, às negociatas escandalosas e à austeridade que redunda apenas em miséria.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Pensões

O primeiro-ministro afirmou que algumas pensões não correspondem ao que as pessoas descontaram, procurando deste modo justificar uma das medidas mais penalizadoras do Orçamento de Estado de 2013. Segundo o primeiro-ministro, as pensões mais elevadas não correspondem aos descontos efectuados.
A frase provocou celeuma com referências a "caneladas" e afins. No entendimento de Marcelo Rebelo de Sousa, as críticas do primeiro-ministro visam o Presidente da República, entre outras individualidades.
Ora, mais uma vez recorre-se à estratégia que incide sobre as divisões para melhor reinar. Diz-se que quem tem uma pensão elevada (falta saber qual o limite a partir do qual se trata de uma pensão elevada) não contribuiu para essa benesse. Desde logo, e embora seja do conhecimento público a existência de pensões elevadas de titulares de cargos públicos cuja carreira contributiva terá sido curta, esta é mais uma generalização abusiva. Há quem tenha pensões acima da média e que descontou durante largas décadas para mais tarde socorrer-se dessa reforma.
De qualquer modo, a questão para Coelho é de somenos. O primeiro-ministro, num tom demagógico, procura justificar o que muitos consideram inconstitucional. Foi esse o seu objectivo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A difícil condição de Paulo Portas

Depois da entrevista na TVI em que o primeiro-ministro elucidava o país sobre o seu número dois e número três (Paulo Portas), depois das hesitações, confusões, dissimulações e afins acerca do Orçamento de Estado, confirma-se a difícil condição de Paulo Portas, na qualidade, bem entendido, de líder do partido minoritário da coligação que forma o Governo.
Agora Paulo Portas, o patriota que parece tudo aguentar em nome do interesse nacional, afirmou que a voz do CDS, no que diz respeito ao Orçamento de Estado, "não foi suficientemente ouvida", situação que, sublinha, não se repetirá.
As afirmações de Portas visam atingir dois objectivos: sossegar as hostes internas que estão a ver a vida do partido andar para trás e sair desta situação de cara lavada, fazendo lembrar um pouco a velha história do polícia bom e do polícia mau - no caso, o CDS terá sido o polícia bom que, num contexto de inevitabilidade, ainda tentou conceber um orçamento menos oneroso para os Portugueses.
Paulo Portas, comprometido com o orçamento, não terá a sua vida futura facilitada. Os riscos são evidentes. Adianto apenas um - o CDS corre o risco de deixar de ser o partido do táxi para passar a ser o partido da bicicleta.
Quanto ao parceiro de coligação, parece imperar o princípio da reciprocidade: "tu tratas-me mal e eu não me fico atrás". Tudo em nome do interesse nacional, claro está.