quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

União bancária

A União Europeia chegou a acordo sobre um mecanismo único de supervisão bancária, com vários responsáveis europeus a vangloriarem-se com esta pretensa vitória da Europa que, quando muito, será uma vitória mais própria de Pirro como outras que se seguirão, depois de tantas baixas entre as classes médias e as classes mais desfavorecidas devastadas pela precariedade, pelo enfraquecimento do Estado Social e pelo desemprego. Tudo consequência da voracidade do sistema financeiro que se aliou a representantes políticos de uma ideologia caduca.
A supervisão bancária única abrangerá 200 bancos, deixando de fora 6000. O BCE conspurcado pela ideologia dominante continuará a ter a mesma filosofia, deixando os Estados entregues à tal voracidade do sistema financeiro; o orçamento comunitário pretende-se que seja reduzido; a uniformização fiscal é ainda uma utopia, tal como é qualquer espécie de uniformização social; o Banco de Investimento Europeu continuará a ter uma actuação insuficiente. Nestas matérias não se ousa falar de vitórias. Também era o que mais faltava.
Por outro lado, a UE, esquecida do seu projecto e, paradoxalmente, prémio Nobel da paz, vê o recrudescimento do desemprego assolar a Europa e assiste a um retrocesso das condições de vida de uma boa parte dos seus cidadãos, mantendo-se distante desses mesmos cidadãos, como de resto, é seu apanágio, afundada num miscelânea de tecnocracia e neoliberalismo. E ainda assim fala-se de vitória a propósito de um acordo que deixa de fora alguns países da UE, como é o caso do Reino Unido, República Checa e Suécia e deixa de fora a maior parte dos bancos. No fundo, trata-se de um acordo que tenta passar a mensagem de confiança no sistema bancário europeu, embora seja mais um mecanismo que se rege pelas mesmas regras, pelos mesmos princípios, pela mesma filosofia que deu origem à crise que está a ser paga por quem não tem responsabilidades.



segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Relvas

Curiosamente, Miguel Relvas, ministro dos Assuntos Parlamentares, falou para um auditório maioritariamente constituído por jovens, como se de um professor se tratasse. Aqueles jovens pareciam ouvir o ministro com atenção, apesar de todo o rídiculo que envolveu o ainda ministro.
Relvas reiterou o seu apoio a Fernando Seara, a propósito das próximas eleições autárquicas, um apoio efusivo que contrastou com o pouco entusiasmo de Seara em relação a esse apoio. Relvas, o ainda ministro teceu críticas ao principal partido da oposição, sempre naquele tom jocoso e prosaico a que nos habituou, aproveitando para criticar os "políticos que só falam ao fim-de-semana".
Relvas falou e os jovens presentes na universidade política do PSD ouviram.
Este Governo, com ministros como o Sr. Relvas, excede largamente os limites do ridículo.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Atrasados mentais

Marques Mendes, gestor, político, comentador, criticou o ministro das Finanças, acusando-o de fazer dos Portugueses  "um conjunto de atrasados mentais", a propósito das declarações do ministro sobre as condições concedidas à Grécia. As contradições sobre este assunto têm sido profusas, ainda assim é surpreendente que Marques Mendes só agora tenha percebido que o inefável ministro das Finanças trata os cidadãos como atrasados mentais.
Com efeito, essa singular forma de tratamento não é de agora. Afinal de contas, o que dizer das comunicações do ministro ao país, naquele tom que todos conhecemos, como se o ministro estivesse a lidar com atrasados mentais? E o que dizer das medidas impostas pelo ministro? O facto é que este Governo tem-se em alta conta, salvaguarda interesses que não os da maioria e subestima os Portugueses. A arrogância, a cegueira ideológica e uma boa dose de inépcia caracterizam este Governo.
Neste particular Marques Mendes tem razão. As contradições em redor das condições concedidas à Grécia não são admissíveis. O Governo, na qualidade de representante eleito dos cidadãos, tem a obrigação de informar os cidadãos, ao invés de adoptar posturas de condescendência para escamotear a verdade..
A exiguidade e as incertezas sobre os caminhos possíveis até podem ser uma realidade, mas outra prende-se com o imperativo de não se admitir que os cidadãos sejam tratados como sendo "atrasados mentais".

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Mais um passo atrás

As palavras de Pedro Passos Coelho na entrevista à TVI continuam a fazer eco, designadamente no que diz respeito à educação. O primeiro-ministro deixou no ar a possibilidade da educação, pelo menos em alguns graus de ensino, deixar de ter um carácter gratuito, referindo-se Passos Coelho à margem na Constituição, comparativamente com a área da Saúde, o que permitiria alterações nestas funções sociais.
Ora, embora o ministério da Educação tenha vindo a terreiro contrariar as palavras de Passos Coelho, a verdade é que a mera possibilidade de se colocar um fim na gratuitidade do ensino (ideologicamente não se pode ignorar a coerência da medida) deu origem a um vasto coro de críticas.
Portugal retrocede diariamente e o fim da gratuitidade na educação, ficando por saber até que grau de ensino haveria então obrigatoriedade, é mais um passo atrás.
Não me parece excessivo repetir as intenções deste Governo, a coberto da famigerada crise cuja origem entretanto todos esquecemos: o Executivo de Passos Coelho tem como objectivo a transformação profunda do país.
Assim, pretende-se aniquilar direitos dos trabalhadores, reduzir o Estado ao mínimo, libertando sectores interessantes para outros tomarem conta das funções do Estado e não esqueçamos que este Governo tem também como objectivo vender sectores estratégicos do país, a pretexto dos desarranjos das contas públicas.
Nada disto é novo. Já se tentou fazer no passado, embora em Portugal, nos anos de democracia (uma das vítimas deste neoliberalismo) nunca se tenha tentado ir tão longe, rompendo o pacto social fruto da revolução de Abril.
Perante a cumplicidade do Presidente da República, a maioria na Assembleia da República e face a um povo, pelo menos uma boa parte, entregue a uma estranha inércia, o Governo vai fazendo as transformações, deitando por terra conquistas arduamente conseguidas e sempre a pretexto da emergência nacional, do estado de excepção, da crise, da parcimónia doentia, dos maus hábitos do passado, dos números, de tudo e mais alguma coisa.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A entrevista

Confesso que não vi a entrevista do primeiro-ministro na totalidade, não me prestei a esse exercício de sadismo. Ainda assim, vi excertos da entrevista nos vários blocos noticiosos. O suficiente para perceber que se tratou de mais uma oportunidade para o primeiro-ministro mostrar a sua fidelidade canina à ideologia por ora dominante, num misto de intransigência, inanidade e indiferença perante o sofrimento dos seus concidadãos. "Vai custar, nunca disse que ia ser pêra doce", disse Pedro Passos Coelho.
Infelizmente, o primeiro-ministro, que não excluiu a possibilidade de encetar mudanças profundas no Estado Social, designadamente na Educação, afirmando que não é possível não ir aos apoios sociais, vai contando com a inércia do povo que governa.
Este primeiro-ministro é um executante de políticas desejadas há muito tempo por alguns; políticas essas que redundam em alterações profundas no Estado Social, na Administração Pública num sentido genérico, e nos direitos de quem trabalha. O retrocesso daí resultante é apanágio de uma ideologia, acredito que minoritária em Portugal, mas ainda assim uma ideologia perfilhada por quem detém o poder económico e, por ora, o poder político.
As dificuldades orçamentais, as dívidas, a troika, a crise (cuja origem já todos esquecemos) constituem o cenário ideal para aplicação dessas alterações profundas, umas já a caminho da consolidação, outras na calha para serem aplicadas.
Passos Coelho é um executante a prazo. Não será reeleito, mas também não será esse o objectivo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O orçamento da nossa desgraça

Tal como se esperava, o Orçamento de Estado foi aprovado sem que haja quem realmente acredite no cumprimento dos objectivos a que o Governo se propôs, excepção feita ao ministro das Finanças e ao primeiro-ministro.
O orçamento da nossa desgraça é mais um passo no caminho da destruição da economia portuguesa. O consumo continuará a cair tendo em consideração o corte no rendimento disponível das famílias; mesmo  que se tenha adoptado o ataque fiscal por via de IRS, a receita fiscal, no seu todo, será menor; o desemprego a crescer, mais ou menos escamoteado por números oficias e pela saída forçada de muitos portugueses do país. Em suma, o futuro avizinha-se cada vez mais sombrio.
Por outro lado, o Governo, coadjuvado pelo Presidente da República, vai-se mantendo fiel à ideologia dominante, continuando na senda da destruição do Estado Social, desvalorização do custo unitário do trabalho; venda de sectores da economia portuguesa, enquanto cria condições para o que era público passe a ser privado (ou pelo menos que a escolha mais acertada recaia sobre o privado).
A conjuntura política não favorece muitas soluções. O Presidente da República é um inerte, não consegue passar de um inerte. Os partidos do Governo têm a maioria no Parlamento e a generalidade dos cidadãos, embora não concordando com o orçamento da nossa desgraça ou com todas as políticas deste Governo, parece preferir acompanhar o Presidente da República nesse seu estado de inércia.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

CDS e o Orçamento de Estado

No dia da votação final do Orçamento de Estado nenhuma surpresa é esperada. Os partidos que suportam o Governo darão o seu aval para mais um retrocesso na vida da generalidade dos cidadãos. No caso do CDS a vacuidade tomou conta do partido que, contrariamente, ao seu ideário, vota a favor de um Orçamento que constitui um aumento de impostos sem precedentes.
Sob a capa de um patriotismo bacoco e de uma pretensa responsabilidade, este pequeno partido corre o sério risco de se tornar ainda mais pequeno, raiando a insignificância.
Se nos prestarmos ao exercício de ouvir as palavras do líder do partido, Paulo Portas, há meros dois anos atrás, percebemos que o ridículo em política é tão frequente.
Nas próximas eleições, pese embora a estreiteza da memória de muitos, espera-se que os votantes habituais deste pequeno partido se lembrem que o CDS não foi só conivente com estas políticas, foi executante.