sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Estados de alma

É curioso assistir às preocupações de Marques Mendes e, em particular, de Miguel Relvas sobre os estados de alma de membros ou do líder do outro partido que compõe a coligação.
Primeiro foi precisamente Miguel Relvas a referir esses estados de alma, afirmando que não era tempo para essas preocupações. Depois foi Marques Mendes a dizer que Governar não é compatível com estados de alma.
Esperamos ansiosamente, mas sentados, que tão ilustres figuras se refiram aos estados de alma dos cidadãos que, vivendo em graves dificuldades, vêem a sua situação piorar incomensuravelmente a partir do próximo anos. Em relação a esses cidadãos a quem é espoliado o que resta do Estado Social, que são encarados como sendo números, que são perseguidos pela súbita voracidade das Finanças, a quem é aplicado um sistema fiscal manifestamente injusto, a quem se convida a sair do país, nem uma palavra.
O "melhor povo do mundo", parafraseando o inefável ministro das Finanças - a esse melhor povo do mundo exige-se paciência. A esse povo impinge-se a cassete da inevitabilidade; a esse povo acena-se com melhorias que um dia chegarão e ameaça-se com um segundo resgate, com o aumento da austeridade e até, em alguns círculos, com a saída do Euro. Ora, pergunta-se a tão ilustres figuras acima referidas que opinião têm sobre o estado de alma de um desempregado, de um pensionaste em dificuldades a quem lhe é roubada parte da reforma, a uma família que conta no seu seio com situações de desemprego, ao jovem (ou, em alguns casos, menos jovem) a quem lhe é dito que a sua vida não pode ser feita no país onde nasceu. Esses são os estados de alma que verdadeiramente interessam e não aqueles pertencentes a oportunistas que hoje estão numa coligação, amanhã estarão na oposição com receitas diametralmente opostas àquelas que aceitam hoje, muito em particular no que diz respeito a aumentos da carga fiscal ou cortes nas pensões.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Os recados de Hollande

O Presidente Francês, François Hollande, afirmou numa entrevista que será necessário dar a Portugueses e Espanhóis uma perspectiva que não passe apenas pela austeridade. Numa entrevista em que o tema central é a Europa (sem rumo, ou rumo ao abismo) Hollande mostra estar contra as políticas que começam e acabam na austeridade. Tivesse sido a Chanceler Alemã a proferir essas palavras e o impacto seria outro. Ainda assim, o Presidente Francês deixa bem claro não ser o mais fervoroso adepto das políticas impingidas (e tão bem aceites no nosso caso) pelas instituições europeias.
Por cá o recados de Hollande, como o recados da directora do FMI caem invariavelmente em saco roto. A austeridade que atinge a demência é para ser levada até ao fim, independentemente das consequências. Por cá, a coligação responsável por mais uma dose cavalar de austeridade tenta não perder a face (em particular no caso do CDS), alegando que este é o caminho possível - prometendo eventualmente pequenas alterações ao Orçamento de Estado -, o contrário implicaria um novo resgate. Outros ainda ameaçam com o argumento da Grécia como se nós não estivéssemos a trilhar o mesmo caminho. Vale tudo em nome de uma ideologia que está a destruir a Europa e que em Portugal, na Grécia e noutros países não deixará pedra sobre pedra.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O retrocesso

Diariamente somos assolados com sinais de retrocesso social, civilizacional e da própria democracia. Agora um estudo, realizado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão, vem mostrar o mesmo cenário ao apontar para a diminuição do fosso entre ricos e pobres nos últimos 20 anos. Note-se que o estudo termina no ano de 2009. Sabemos - e os próprios autores do estudo o afirmam - que essa inversão não terá seguimento nos próximos anos.
Portugal, mesmo com esse retrocesso, mantém-se como um dos mais desiguais da União Europeia. E quanto a isso, o actual Executivo terá muito a pouco a dizer. Esse facto é de somenos. As políticas cegamente seguidas - contra tudo e contra todos - manter-se-ão até à queda do Governo. Pouco interessa que as vítimas dessa política não sejam uma franja ínfima da população, mas uma grande parte; pouco interessa se as políticas assentes na austeridade em dose cavalar sejam contraproducentes, produzindo apenas mais pobreza, mais desemprego e menos economia.
O estudo em apreço aborda o fosse entre ricos e pobres. No próximo ano pouco restará da classe média em Portugal. Esse é indubitavelmente o maior retrocesso.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A loucura instalou-se

O Orçamento de Estado para 2013 foi finalmente entregue à Assembleia da República. A loucura que consta no documento, assente na ideologia dominante que andará a raiar o ultraliberalismo, matará a economia - que já se encontra num estado periclitante - no próximo ano.
O resultado deste OE e da subida "enorme" de impostos passará pelo aumento do incumprimento (a vários níveis), pelo decréscimo abrupto (ainda mais) da procura interna, pelo aumento do desemprego, pelo aumento da pobreza e pelo fim da classe média.
É de uma loucura e de uma irresponsabilidade sem precedentes que se trata. O senhor ministro das Finanças e o senhor primeiro-ministro insistem num caminho contestado por todos, mesmo por aqueles que noutros tempos se remeteram ao silêncio.
O país vai pagar caro esta loucura. O ministro das Finanças, num novo exercício de irresponsabilidade, anuncia que não há alternativa, inquietando deputados da sua própria coligação.
O país está refém desta gente que, contracorrente, insiste no caminho da desgraça. O objectivo parece ser o de transformar este pequeno país um laboratório para se experimentar o radicalismo ideológico. É preciso pôr um travão nisto, o quanto antes.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Cerco ao Parlamento


Está marcado para hoje um cerco a S. Bento. Alguns movimentos estão a mobilizar cidadãos com o objectivo de mostrar o seu descontentamento perante um dos piores orçamentos de Estado das últimas décadas. As razões que subjazem o descontentamento são bem conhecidas, transversais a uma grande parte da sociedade portuguesa e não podem deixar de ser passíveis de compreensão.
Depois de avanços e recuos, de um clima de grande indefinição, a única certeza parece estar relacionada com dureza extrema que o documento vai ter na vida da classe média.
Entretanto, o pais está em suspenso. O clima é tudo menos propício para os negócios, para a actividade económica e para a sobrevivência de uma boa parte dos cidadãos. Muito está a ser posto em causa por este orçamento. Não é de espantar pois que alguns cidadãos procurem formas mais incisivas de mostrar o seu descontentamento. Este Governo governa para quem? E talvez se comece a colocar outra questão: este Governo governa em nome de quem? A legitimidade democrática conferida pelo voto não é carta branca para todo o tipo de atropelos.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Massacre fiscal


Ou "napalm fiscal" na versão de Bagão Félix. Assim se caracteriza o conjunto de medidas ontem conhecidas - com maior detalhe - do Orçamento de Estado. O ex-ministro reconhece que estas medidas terão um "impacto devastador" na economia. Persiste-se no erro e curiosamente no mesmo dia em que se conheceu com maior detalhe as medidas que constituem o tal massacre fiscal, a directora do FMI recomendou que se coloque um travão à austeridade.
O Governo que se aproxima do último estertor parece empenhado em querer levar uma boa parte dos Portugueses consigo. Resta saber se esses Portugueses estão dispostos a isso e, se não for o caso, o que é que vão fazer, ou melhor o que é que vamos fazer para impedir o "massacre fiscal" e o subsequente impacto devastador.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

As peripécias de um Governo não desejado num país de gente dispensável

A legitimidade conferida pelo acto eleitoral, não pressupõe a aceitação, durante o tempo de legislatura, das medidas diariamente impingidas pelo Governo, revestidas pela vontade da Troika. O Executivo de Passos Coelho é cada vez menos desejado e não me parece que esta matéria seja passível de discussão.
Depois de tantas peripécias - curiosamente uma boa parte delas envolvendo Miguel Relvas - surge um novo episódio envolvendo a empresa gerida por Passos Coelho e - espante-se! - Miguel Relvas, na altura secretário de Estado da Administração Local. Explanar sobre o assunto provoca náuseas, pelo que me abstenho de o fazer. Ou seja, para além dos danos provocados pela ideologia dominante, temos ainda de suportar as peripécias de um Governo cada vez menos desejado, perante a já habitual passividade e ineficácia da Justiça.
Entretanto, são cada vez mais os que não encontram soluções no seu próprio país, vendo-se forçados a procurar outras paragens. Vários membros do Governo, incluindo o primeiro-ministro, nunca esconderam que essa seria uma boa solução. A sensação de não termos lugar no nosso próprio país faz indubitavelmente parte do rol das experiências mais nefastas pelas quais o ser humano pode passar. Os arautos da ideologia dominante falam em mobilidade, empobrecimento, zona de conforto, globalização, etc. Mas infelizmente nenhum deles passa pela difícil experiência de abandonar o seu país, simplesmente porque deixou de haver lugar (leia-se emprego) para eles. Caso saíam do país, será para desempenhar funções confortáveis num cargo de tecnocracia, tendo sempre outras portas abertas em Portugal.
Quem tem emprego - uma boa parte, pelo menos - sente a profunda amargura de ver os amigos e familiares partir, pensando inevitavelmente sobre a altura em que chegará a nossa vez. Até lá, o caminho é o do empobrecimento, a ideia não é minha, é do primeiro-ministro de Portugal. Até quando suportaremos este estado de coisas? Até quando vamos continuar a premiar com o nosso voto aqueles que durante anos apenas zelaram pelos seus interesses, em detrimento do interesse geral.
Não admira pois que a tão famigerada coesão social seja ameaçada diariamente. Simplesmente já não há estômago para isto. Dia 15 de Outubro há uma convocatória para um cerco à Assembleia da República, aproveito para informar.

Manifesto: http://cercoaoparlamento.blogspot.pt/p/este-nao-e-o-nosso-orcamento.html