quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Classe Média

As medidas ontem anunciadas pelo ministro das Finanças correspondem a um aumento de impostos colossal (peço a palavra emprestada ao primeiro-ministro Pedro Passos Coelho) que incidirá sobretudo sobre a classe média que se aproxima a passos largos da extinção completa.
Depois de derrapagens sucessivas e de um falhanço retumbante (disfarçado com operações de financiamento aparentemente bem sucedidas), o Governo pede mais aos do costume.
Assim, para o ano avizinha-se mais dificuldades quer para as famílias, quer para a própria economia. Para o ano, tudo indica que serão exigidos novos sacrifícios tendo em consideração que a receita (já experimentada por tantas vezes) falha invariavelmente.
Por ora resta saber até que ponto a classe média aguentará mais estas medidas. Do lado da despesa, os cortes incidirão sobre o lado da despesa social com saúde e educação à cabeça, o que constituí novo retrocesso para a classe média que se vê na posição ingrata de financiar o sistema e pagar cada vez que dele necessita.
Um novo falhanço avizinha-se. E depois? Pede-se um novo resgate? Voltaremos a ver o mesmo que vimos em 2012: défice público a subir (as regalias, o compadrio, a promiscuidade entre poder político e poder económico, a corrupção, as negociatas, manter-se-ão); a receita fiscal a cair e os juros a aumentarem.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Os últimos a saber

As medidas alternativas à famigerada e defunta TSU foram conhecidas, em primeira mão, pela famigerada (e esperamos que brevemente defunta) Troika, sem que os partidos da oposição e os parceiros sociais as conhecessem. Dito por outras palavras, o primeiro-ministro não deu cavaco a ninguém para além da Troika. Seremos os últimos a saber.
A postura não é inédita, no passado recente assistimos ao mesmo filme, com o principal protagonista deste mais recente filme a criticar o seu antecessor. Curioso.
Esta posição assumida pelo Governo diz muito da sua postura em relação aos Portugueses. Afinal de contas, quem merece as explicações do Governo são os credores, o resto que tenha paciência.
Hoje o ministro das Finanças dará a conhecer ao país - finalmente - as tais medidas que os credores já conhecem.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Ignorantes

O mote foi dado pelo conselheiro do Governo, António Borges, o mesmo senhor que fez um brilharete noutras ocasiões, a título de exemplo veja-se a entrevista à BBC (http://www.youtube.com/watch?v=5WB2SHPHU54&feature=player_embedded). Segundo o conselheiro de Governo, envolvido activamente no processo de privatizações, os empresários (a vasta multiplicidade de empresários) que se mostraram contra as alterações à TSU são ignorantes e não passariam do primeiro do curso que o Professor António Borges lecciona.
Em resposta, alguns empresários já afirmaram que é o Professor o ignorante nestas matérias, e que o mesmo também não teria lugar em muitas empresas do nosso país.
António Borges é uma figura não eleita, mas com peso nas decisões do Governo, em particular no que diz respeito às privatizações. As palavras são, no mínimo infelizes, sublinhando que quem não está com António Borges é forçosamente ignorante. António Borges entornou novamente o caldo, num Governo que insiste em testar a paciência dos Portugueses até aos limites.
Por estes dias fala-se muito de ignorância, sem contudo se tocar noutros géneros de ignorância, aqueles que permitem que sejam os responsáveis pela crise a prescrever receitas para a mesmo crise. Desta matéria, o Professor António Borges saberá muito.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Manifestação de 29 de Setembro

Amanhã é dia de nova manifestação, desta vez convocada pela CGTP. Depois do recuo, por parte do Governo das alterações à TSU, esta manifestação poderá ser um teste. Suspeito que o recuo nas alterações à TSU não seja suficiente, até porque se antevê medidas de carácter fortemente penalizador para os sacrificados do costume.
Começa a haver a percepção de que este Governo não serve, isto apesar das ameaças constantes com o Apocalipse (leia-se queda do governo e instabilidade política). Muitos acusam o Governo de incompetência. Não considero que seja esse o cerne da questão. Do meu ponto de vista, a questão é essencialmente ideológica. Este Governo é apologista da ideologia que faz da inflação o bicho papão, a ideologia que em nome desse bicho papão pretende flexibilizar as leis do trabalho, insiste no carácter móvel do capital. Políticas que só beneficiam os interesses da finança. O emprego e o crescimento económico são vítimas da ideologia dominante. O resultado é instabilidade e crises atrás de crises. Pior, escolhemos os responsáveis pela crise para encontrar as suas soluções.
Curiosamente, Portugal, Espanha, Itália e a Grécia têm nos seus governos os defensores da ideologia dominante. Qualquer mudança terá de passar forçosamente pela mudança destes protagonistas.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Golpe de Estado

A secretária-geral do partido comparou a manifestação de ontem em Madrid e o cerco ao Congresso como uma tentativa de golpe de Estado semelhante ao que se passou em 1981. Vários manifestantes tentaram cercar o congresso em Madrid, a Catalunha fala na sua independência e já estão marcadas eleições para o dia 25 de Novembro. Mariano Rajoy tenta controlar uma situação caótica com recurso à força da polícia, a possibilidade de Espanha pedir um resgate total vai ganhando força e parece já - essa sim - uma inevitabilidade.
É inquestionável que Espanha atravessa um dos períodos mais difíceis em democracia. A austeridade que o Governo espanhol se prepara para implementar apenas vai aumentar a indignação que se começa a generalizar.
A crise económica e social traz rapidamente ao de cima a inexistência de coesão no país. A Catalunha dá o primeiro passo ao marcar eleições, a independência parece ser o caminho.
A situação é preocupante para Espanha, mas para toda a Europa que perante o afundamento dos países sob resgate permanece ou na inacção ou na insistência na receita falhada.
Hoje os indignados Espanhóis prometem regressar ao congresso. A situação só pode piorar. 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Derrapagem

Apesar dos sacrifícios pedidos, essencialmente à classe média, a derrapagem orçamental continua a fazer o seu caminho. No que diz respeito à receita, a excepção terá sido o IRS, por razões óbvias. A continuarmos por este caminho, em alguns meses dir-se-á que são necessárias novas medidas de austeridade em virtude de não conseguirmos cumprir as metas a que nos propusemos.
Depois do abandono das mexidas da Taxa Social Única e da introdução de novas medidas fortemente penalizadores para a classe média (as outras medidas que incidem sobre os que estão nos patamares acima são insignificantes), o Governo continua a contribuir inexoravelmente para o afundamento do país.
As derrapagens, esta e outras, contribuem para a consolidação de uma ideia que se começa a generalizar: a de que por mais sacrifícios que sejam pedidos o resultado será sempre insuficiente e, paradoxalmente, serão necessárias mais medidas de austeridade, mesmo quando a classe média já não tem qualquer margem para fazer face a essa austeridade. O resultado também passará pela contestação social que dificilmente se atenuará com o anúncio de novas medidas.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Remodelação

Pede-se, exige-se uma remodelação no seio do Executivo. Os primeiros a fazê-lo são membros dos partidos que formam a coligação, em particular do PSD. A ideia parece ser: a casa está podre, a cair, mas vamos remodelá-la na esperança de aguentar o edifício mais uns tempos, mesmo sabendo que os alicerces estão demasiado afectados. A ideia de se edificar um novo projecto político é manifestamente ideia que não convence uma boa parte da classe política.
Acena-se com o perigo da instabilidade política; recorda-se o periclitante caso grego; só falta chamar à colação a chegada do Apocalipse. Vale tudo para se evitar uma crise política. Tanto faz que a crise económica e social estejam a ganhar dimensões incomensuráveis. O que importa é evitar uma crise política.
O Governo recua na Taxa Social Única, no sentido de apaziguar os ânimos, embora seja evidente que outras alterações fortemente penalizadoras para a moribunda classe média estejam na calha.
Os cidadãos mostram um cansaço relativamente ao Governo, relativamente às difíceis condições de vida, em relação a toda uma classe política, em relação à mais do que exasperante ausência de esperança. As manifestações dão sinais de serem cada vez menos pacíficas. O Presidente da República afasta a todo o custo o cenário de crise política - será seguramente um dos tais que acredita que os alicerces da casa ainda estão em condições para a manter em pé.
De uma coisa podemos estar certos: a remodelação poderá, no melhor dos cenários, acalmar temporariamente os ânimos. Porém, já se terá esticado demasiado a corda e são muitos os que querem ver a casa ir abaixo, para no seu lugar se edificar uma outra coisa qualquer que lhes restitua a esperança no futuro.