segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Ainda os ecos da manifestação

No último sábado, em várias cidades do país, milhares de pessoas saíram à rua. O descontentamento que se terá agudizado após o anúncio de novas medidas de austeridade ocupou um número considerável de cidades.
É evidente que se tratou de um sinal para quem governa, mas não será decisiva para uma queda do Governo, até porque essas jogadas são de bastidores, longe dos cidadãos. Já lá vai o tempo que por muito menos, um Presidente da República decidiu pôr um ponto final numa legislatura. Agora os tempos são outros assim como os intervenientes.
De qualquer modo, a manifestação de sábado passou a mensagem de que são cada vez mais os descontentes com as doses cavalares de austeridade, com a incompetência e com os tais intervenientes.
Infelizmente, insiste-se em passar a mensagem de que não há alternativa. Paulo Portas fez questão de o afirmar, coadjuvado pelos comentadores do costume. O peso na inevitabilidade, o patriotismo, a responsabilidade e o sentido de Estado são argumentos pouco rebatidos. Não há alternativa, dizem uns; são todos iguais, acrescentam outros. Unidos numa manifestação para expressar o seu descontentamento, perdidos (uma boa parte) no rumo a dar ao país.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Contestação III

O líder do principal partido da oposição, António José Seguro, fez, porventura, a declaração mais dura desde que está na liderança do Partido Socialista. Para além de ter anunciado a intenção do seu partido chumbar o Orçamento de Estado, Seguro foi mais longe e anunciou que, se o Governo não recuar nas alterações à Taxa Social Única, o Partido Socialista apresentará uma moção de censura.
Passos Coelho procurou fazer a defesa das suas medidas numa entrevista à RTP. Teve contra si a tibieza dos argumentos ou até mesmo a inexistência de linha de argumentação e dois jornalistas que, longe de causarem estragos significativos, ainda assim incomodaram.
Está aberta uma crise política, quanto a isso, não restam dúvidas. Resta saber se a manchete do jornal Público, anunciando o fim da coligação depois da aprovação do Orçamento de Estado, tem algum fundo de verdade. Se assim for, a contestação ganha novas formas e terá consequências que poderão muito bem culminar com a queda do Governo.
Por outro lado, a contestação sai às ruas do país amanhã. O que inicialmente seria uma manifestação organizada por movimentos e que muito provavelmente contaria com as presenças habitais, transformou-se num verdadeiro teste ao Governo. A contestação sobe de tom, apesar da entrevista e tentativas de explicação do primeiro-ministro. Contestação que também se faz na rua, como o dia de amanhã seguramente demonstrará.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Contestação II

As vozes de contestação sobem de tom, à esquerda, à direita, ao centro, no meio, ao fundo, em cima, em baixo, etc. Ferreira Leite manifestou ontem, em entrevista, o seu profundo desagrado com as medidas anunciadas pelo Governo. Mário Soares confessou não poder estar presente na manifestação do próximo dia 15 por compromissos entretanto assumidos e mostrou-se "profundamente indignado". A Igreja volta mostrar incompreensão com a injustiça do rumo escolhido pelo Governo. Assunção Cristas, ministra da Agricultura, escapa a um ovo.
A incompreensão, a indignação e a contestação são generalizadas. Está aberta a possibilidade do Governo enfrentar a sua primeira crise política. Os acontecimentos sucedem-se. Hoje o primeiro-ministro dá uma entrevista na RTP1; o líder do principal partido da oposição fala ao país. Ontem Manuela Ferreira Leite não afastou liminarmente a possibilidade de estar presente nas manifestações. Sinais de um descontentamento transversal e da possibilidade de se viver um período de instabilidade política. A receita é desastrosa e experimentalista, só o Governo é que ainda não percebeu isso.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Mais tempo, mais austeridade

Por um lado, o assunto da austeridade e das pretensas contas do país provocam uma espécie de náusea generalizada, por outro, é pouco sensato escolhermos ficar de fora desses mesmos assuntos. Afinal de contas é também pela razão de nos termos demitido de uma cidadania mais activa que o problema atingiu as dimensões que conhecemos ou julgamos conhecer.
O inefável ministro das Finanças anunciou a boa nova: o país portou-se bem e por essa razão conseguimos uma flexibilização das metas acordadas com a troika. Paradoxalmente, ainda são necessárias doses cavalares de austeridade, isto apesar da economia do país se encontrar às portas da morte.
Assim, ontem foram conhecidas mais medidas de austeridade, que incidem sobre trabalhadores independentes, pensionistas e os restantes trabalhadores (mexidas nos escalões de IRS).
Por outro lado, Miguel Relvas (sim, ele ainda anda por aí) enfatiza o carácter pacífico dos Portugueses, distanciando-se da Grécia. Por cá está tudo bem, o povo é sereno, mesmo quando gozam na sua cara. Assim vai o país, preso a um misto de inércia e de negação envolto num manto de surrealismo.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Contestação

As medidas anunciadas pelo Governo que incidem sobretudo sobre os rendimentos do trabalho estão a sofrer forte contestação. De facto, é difícil encontrar quem venha a público defender essas medidas. Uns contestam mais a forma - insidiosa - como as medidas foram anunciadas; outros focam as suas críticas nas medidas em concreto. Seja como for, a contestação é a maior que este Governo viveu até ao momento.
A comunicação social, amiúde vergada aos mesmos interesses que o Governo escandalosamente defende, vira-se em bloco contra o Executivo de Passos Coelho. A multiplicidade de comentadores que criticam as medidas e o próprio primeiro-ministro e os jornalistas, no tratamento das peças noticiosas, não escondem o seu descontentamento. Até dentro dos partidos que formam a coligação ouvem-se vozes de desagrado.
De resto, a contestação poderá chegar em força às ruas, primeiro no dia 15 de Setembro, numa manifestação que já não se ficará apenas pela cidade de Lisboa e, posteriormente, no dia 1 de Outubro com a contestação da CGTP.
As medidas anunciadas não agradaram a ninguém: nem a trabalhadores, nem ao patronato, nem aos comentadores de costume, nem a membros dos partidos da coligação.
O Governo assim enfrenta um primeiro grande teste, confrontado com os seus falhanços, designadamente no que diz respeito ao cumprimento das metas exigidas, e sujeito a uma torrente de críticas nunca antes vista.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Amigos

Foi desta forma que Pedro Passos Coelho iniciou o seu "post" no Facebook, um dia depois de ter anunciado aos Portugueses mais medidas onerosas que atingem, no essencial, a classe média trabalhadora, novamente.
Escusado será dizer - até porque já foi sobejamente afirmado - que estas medidas não vão produzir os efeitos anunciados pelo primeiro-ministro, designadamente no que diz respeito a um hipotético aumento do emprego. Muito pelo contrário. Escusado será enfatizar que estas medidas voltam a penalizar uma classe média depauperada. Escusado será dizer que as medidas anunciadas devem ser enquadradas num contexto de total benefício para a finança e para as grandes empresas, em detrimento de quem trabalha.
É com a palavra "amigos" que Pedro Passos Coelho anuncia o seu estado de alma na conhecida rede social. A familiaridade é inusitada e só lhe fica mal, em particular porque no dia anterior mostrou a sua confiança e irredutibilidade que acaba por cair por terra no facebook. Sendo certo também que no dia anterior o estado de alma de Pedro Passos Coelho não estaria pelas ruas da amargura, tendo em consideração o facto deste ainda ter encontrado força para comparecer a um espectáculo musical.
De um modo geral, o primeiro-ministro podia ter encurtado a sua declaração na sexta-feira. "Amigos, preparem-se para mais empobrecimento.". Esta frase seria um bom resumo das medidas anunciadas. "Amigos, não vamos ficar por aqui" - é o mote para a semana que agora começa.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Percepções

O anúncio de que o Banco Central Europeu pode comprar dívida aos países, beneficiando inclusivamente aqueles que estão sob "ajuda" externa tem motivado algum entusiasmo. Aparentemente trata-se de um sinal de alguma mudança na filosofia que rege o sistema monetário europeu. Aparentemente. A insuficiência da medida é evidente e a única certeza é que medidas desta natureza interferem com os nervos da Alemanha que promove políticas que ao longo dos anos têm contribuído para o aumento do desemprego na Europa numa clara tentativa de manutenção de baixos salários. Pelo caminho impulsionou-se o endividamento beneficiando a Alemanha, a mesma Alemanha que encontrou na Zona Euro um mercado de decisivo para a sua própria economia. Depois de uma Europa, em particular no Sul, mas não só, secar, a China vai fazendo as vezes de outros países europeus, anteriormente olhados como mercados apetecíveis. Pelo caminho ainda, alimentou-se e alimenta-se a voracidade do sector financeiro.
Por cá, o país atravessa dificuldades incomensuráveis. Longe de alcançar as metas a que se propôs, o Governo insiste - à semelhança da Troika - na aplicação de mais medidas de austeridade, não descartando um possível aumento de impostos, numa altura em que se fala numa alteração aos escalões de IRS, prevendo-se a sua redução.
As percepções de que não há outro caminho para um país fortemente endividado esbarram na dura realidade do dia-a-dia e numa dolorosa inexistência de perspectivas de futuro. A inacção que tanto nos caracteriza encontra no medo de não cumprir com o que nos dizem ser fundamental um parceiro ideal.
Outros preferem enaltecer que o problema é o Estado Social, insistindo na tese de que há demasiadas pessoas a viverem sob assistência do Estado, criando gravosas injustiças. Estas afirmações ignoram o peso do Estado Social na economia do país, sobretudo comparando com outros países da UE, e ignoram sobretudo a existência de outras despesas, essas sim, supérfluas; ignoram a incapacidade do Estado fazer face aos grandes interesses; esquecem mesmo a promiscuidade entre Estado e sector económico; esquecem, no essencial, que haverá onde se possa poupar sem ferir a dignidade daqueles que já estão em dificuldades. Uma coisa é falar-se de aperfeiçoamento do Estado Social, abordar-se a questão da eficiência e da justiça das políticas sociais, outra é pôr-se incessantemente em causa um elemento que consolida os próprios sistemas democráticos e que garante os objectivos da própria política - objectivos esses, recordo, que se centram no bem comum.
As percepções são, obviamente, variadas. Porém, a percepção do "tem de ser" que esbarra na dura realidade e a desinformação, ou falta de informação contribuem para uma clima de apatia aliado ao tão nosso característico eterno sofrimento que não deixa espaço para mais nada, isto num país sem qualquer projecto de futuro.
O ânimo em torno da percepção de que as coisas estão a mudar graças à decisão do BCE e a possibilidade do Banco Central emprestar directamente dinheiro a Portugal está muito longe de ser suficiente para ultrapassarmos as dificuldades presentes. Um bom princípio seria o abandono do estado de apatia, a procura de informação para fundamentar as decisões, a recusa em aceitar tudo o que nos é imposto numa postura de subserviência que nos humilha a todos.