terça-feira, 11 de setembro de 2012

Contestação

As medidas anunciadas pelo Governo que incidem sobretudo sobre os rendimentos do trabalho estão a sofrer forte contestação. De facto, é difícil encontrar quem venha a público defender essas medidas. Uns contestam mais a forma - insidiosa - como as medidas foram anunciadas; outros focam as suas críticas nas medidas em concreto. Seja como for, a contestação é a maior que este Governo viveu até ao momento.
A comunicação social, amiúde vergada aos mesmos interesses que o Governo escandalosamente defende, vira-se em bloco contra o Executivo de Passos Coelho. A multiplicidade de comentadores que criticam as medidas e o próprio primeiro-ministro e os jornalistas, no tratamento das peças noticiosas, não escondem o seu descontentamento. Até dentro dos partidos que formam a coligação ouvem-se vozes de desagrado.
De resto, a contestação poderá chegar em força às ruas, primeiro no dia 15 de Setembro, numa manifestação que já não se ficará apenas pela cidade de Lisboa e, posteriormente, no dia 1 de Outubro com a contestação da CGTP.
As medidas anunciadas não agradaram a ninguém: nem a trabalhadores, nem ao patronato, nem aos comentadores de costume, nem a membros dos partidos da coligação.
O Governo assim enfrenta um primeiro grande teste, confrontado com os seus falhanços, designadamente no que diz respeito ao cumprimento das metas exigidas, e sujeito a uma torrente de críticas nunca antes vista.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Amigos

Foi desta forma que Pedro Passos Coelho iniciou o seu "post" no Facebook, um dia depois de ter anunciado aos Portugueses mais medidas onerosas que atingem, no essencial, a classe média trabalhadora, novamente.
Escusado será dizer - até porque já foi sobejamente afirmado - que estas medidas não vão produzir os efeitos anunciados pelo primeiro-ministro, designadamente no que diz respeito a um hipotético aumento do emprego. Muito pelo contrário. Escusado será enfatizar que estas medidas voltam a penalizar uma classe média depauperada. Escusado será dizer que as medidas anunciadas devem ser enquadradas num contexto de total benefício para a finança e para as grandes empresas, em detrimento de quem trabalha.
É com a palavra "amigos" que Pedro Passos Coelho anuncia o seu estado de alma na conhecida rede social. A familiaridade é inusitada e só lhe fica mal, em particular porque no dia anterior mostrou a sua confiança e irredutibilidade que acaba por cair por terra no facebook. Sendo certo também que no dia anterior o estado de alma de Pedro Passos Coelho não estaria pelas ruas da amargura, tendo em consideração o facto deste ainda ter encontrado força para comparecer a um espectáculo musical.
De um modo geral, o primeiro-ministro podia ter encurtado a sua declaração na sexta-feira. "Amigos, preparem-se para mais empobrecimento.". Esta frase seria um bom resumo das medidas anunciadas. "Amigos, não vamos ficar por aqui" - é o mote para a semana que agora começa.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Percepções

O anúncio de que o Banco Central Europeu pode comprar dívida aos países, beneficiando inclusivamente aqueles que estão sob "ajuda" externa tem motivado algum entusiasmo. Aparentemente trata-se de um sinal de alguma mudança na filosofia que rege o sistema monetário europeu. Aparentemente. A insuficiência da medida é evidente e a única certeza é que medidas desta natureza interferem com os nervos da Alemanha que promove políticas que ao longo dos anos têm contribuído para o aumento do desemprego na Europa numa clara tentativa de manutenção de baixos salários. Pelo caminho impulsionou-se o endividamento beneficiando a Alemanha, a mesma Alemanha que encontrou na Zona Euro um mercado de decisivo para a sua própria economia. Depois de uma Europa, em particular no Sul, mas não só, secar, a China vai fazendo as vezes de outros países europeus, anteriormente olhados como mercados apetecíveis. Pelo caminho ainda, alimentou-se e alimenta-se a voracidade do sector financeiro.
Por cá, o país atravessa dificuldades incomensuráveis. Longe de alcançar as metas a que se propôs, o Governo insiste - à semelhança da Troika - na aplicação de mais medidas de austeridade, não descartando um possível aumento de impostos, numa altura em que se fala numa alteração aos escalões de IRS, prevendo-se a sua redução.
As percepções de que não há outro caminho para um país fortemente endividado esbarram na dura realidade do dia-a-dia e numa dolorosa inexistência de perspectivas de futuro. A inacção que tanto nos caracteriza encontra no medo de não cumprir com o que nos dizem ser fundamental um parceiro ideal.
Outros preferem enaltecer que o problema é o Estado Social, insistindo na tese de que há demasiadas pessoas a viverem sob assistência do Estado, criando gravosas injustiças. Estas afirmações ignoram o peso do Estado Social na economia do país, sobretudo comparando com outros países da UE, e ignoram sobretudo a existência de outras despesas, essas sim, supérfluas; ignoram a incapacidade do Estado fazer face aos grandes interesses; esquecem mesmo a promiscuidade entre Estado e sector económico; esquecem, no essencial, que haverá onde se possa poupar sem ferir a dignidade daqueles que já estão em dificuldades. Uma coisa é falar-se de aperfeiçoamento do Estado Social, abordar-se a questão da eficiência e da justiça das políticas sociais, outra é pôr-se incessantemente em causa um elemento que consolida os próprios sistemas democráticos e que garante os objectivos da própria política - objectivos esses, recordo, que se centram no bem comum.
As percepções são, obviamente, variadas. Porém, a percepção do "tem de ser" que esbarra na dura realidade e a desinformação, ou falta de informação contribuem para uma clima de apatia aliado ao tão nosso característico eterno sofrimento que não deixa espaço para mais nada, isto num país sem qualquer projecto de futuro.
O ânimo em torno da percepção de que as coisas estão a mudar graças à decisão do BCE e a possibilidade do Banco Central emprestar directamente dinheiro a Portugal está muito longe de ser suficiente para ultrapassarmos as dificuldades presentes. Um bom princípio seria o abandono do estado de apatia, a procura de informação para fundamentar as decisões, a recusa em aceitar tudo o que nos é imposto numa postura de subserviência que nos humilha a todos.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Eleições americanas

Depois da convenção republicana, a convenção democrata. Quanto à primeira, pouco haverá a acrescentar para além do surrealismo da coisa. A convenção democrata parece ter tido o seu ponto alto com a presença da mulher de Barack Obama, Michelle Obama. O Presidente Americano conta com o desgaste de perto de quatro anos de dificuldades da economia americana.
A sensação de que não terá feito o suficiente será provavelmente generalizada. A economia americana ainda está longe de outros períodos de pujança, o desemprego, embora atenuado precisamente graças às políticas da Administração Obama, continua a afligir uma vasta franja da população e o sentimento de gradual tibieza da hegemonia americana são aspectos que poderão prejudicar as intenções de reeleição de Barack Obama.
De qualquer modo, Obama continua a ser o melhor candidato ao cargo e mesmo que ignoremos as questões ideológicas, a serenidade, o respeito pelo adversário político e a sensatez contrastam com o inefável (como de resto têm sido muitos candidatos republicanos nos últimos anos) Mitt Romney.
Estas eleições americanas não têm o entusiasmo da anterior em que um improvável candidato - Barack Obama - prometia a mudança. Essa mudança nunca chegou verdadeiramente (talvez se consolide num segundo mandato), porém Barack Obama continua a pertencer a uma dimensão a que Mitt Romney nunca pertencerá.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Submarinos, uma Justiça que se afunda e um país à deriva


A famigerada história dos submarinos ainda vai dando que falar, sobretudo, graças ao envolvimento do agora ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Portas. A directora do DCIAP, Cândida Almeida - a mesma que proferiu um discurso memorável, pelas piores razões, na Universidade de Verão do PSD, tem vindo a desvalorizar o pretenso envolvimento do ministro em questão, preferindo acusar as autoridades alemãs pelos atrasos no processo.
Por outro lado, o Ministério Público tem outras suspeitas, designadamente sobre um pagamento de 25 milhões de euros a uma consultora que mais não serão do que "luvas". Cândida Almeida insiste em afastar suspeitas sobre Paulo Portas, o mesmo se terá passado com outras figuras proeminentes da vida política portuguesa. A directora do DCIAP também não acredita na corrupção que por aí tanto se fala. Trata-se afinal de falatório e pouco mais.
O certo é que a Justiça que já andava pelas ruas da amargura, tem agora o seu rosto na lama. O caso dos submarinos é só mais um exemplo de uma Justiça complexa, lenta e ineficaz que inviabiliza qualquer rumo de desenvolvimento. Com troika ou sem troika, o país continuará à deriva sem uma Justiça que garanta aos seus cidadãos um Estado de Direito digno da democracia.
Quanto a Paulo Portas, o silêncio é de ouro. Tenho dúvidas que este ou qualquer outro caso - mesmo com provas taxativas - tenha consequências. Se dúvidas existem, veja-se como Miguel Relvas continua a andar por aí como se nada se tivesse passado.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Seis dias

A famigerada troika sugere que a semana de trabalho na Grécia passe dos actuais cinco dias para seis dias por semana. Esta é uma das várias propostas da
troika com o objectivo de flexibilizar ainda mais o mercado de trabalho grego. Segundo estas sumidades que compõem a troika e que se afundam em teorias económicas neoclássicas, a solução para os problemas gregos (portugueses, espanhóis e afins) passa por trabalhar mais por menos.
Os senhores da troika esquecem amiúde - ou fingem esquecer - a dimensão social dos problemas, sobretudo dos problemas económicos. Sendo certo que o seu objectivo não se coaduna inteiramente com o bem-estar daquele povo em particular, mas prende-se antes com a garantia de pagamento de juros obscenos, com a flexibilização das leis laborais, com a abertura do mercado do país e com a subsequente venda do país, pedaço por pedaço, a verdade é que quando se ignora essa mesma dimensão social as consequências são desastrosas e não forçosamente para o país que se vê sob o jugo das ditas políticas impingidas pela troika, pela Alemanha, seja por quem for.
Seis dias de trabalho por semana corresponde a um retrocesso sem precedentes. Espera-se que a proposta seja veementemente combatida pela sociedade grega.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Orçamento de Estado

A discussão que se avizinha sobre o Orçamento de Estado promete ser um teste de difícil superação para o Governo. Embora não se espere um chumbo do documento, tendo em consideração o facto da coligação constituir maioria absoluta dos votos, o distanciamento do Partido Socialista começa a ser evidente.
Mesmo a coligação com o CDS parece já ter conhecido melhores dias.
Com efeito, não será propriamente uma surpresa um voto em sentido negativo por parte do Partido Socialista. Paralelamente, são os fortes os sinais que indicam os falhanços do Governo - o mais recente prende-se com os números do défice no último semestre - o que enfraquece inexoravelmente o Governo.
A discussão sobre o Orçamento de Estado é um teste para o Executivo de Passos Coelho que se vê abraços com os falhanços das metas, apesar dos sacrifícios pedidos, e com os elementos do seu Governo que não se cansam de revelar elevadas doses de tibieza. A coligação já conheceu dias melhores, sobretudo depois da trapalhada em torno da pretensa concessão da RTP, e o famigerado consenso com o PS aproxima-se de uma ruptura.