quinta-feira, 26 de julho de 2012

Imaginemos

Façamos o seguinte exercício: acordamos uma manhã com a notícia que o país deixou de ter défice e dívida. Imaginamos logo a reacção de políticos a chamar para si a responsabilidade por essa espécie de milagre e a reacção de um país que respira de alívio.
Neste cenário hipotético, pensar-se-ia que uma parte significativa dos nossos problemas estariam resolvidos. Porém, mesmo que esse cenário viesse, miraculosamente, a concretizar-se, o país continuaria a deparar-se com dificuldades de relevo, impeditivas do tão almejado desenvolvimento. É precisamente deste ponto de vista que se percebe a total ausência de um projecto, de um desígnio, num contexto de uma inexorável inexistência de visão estratégica.
O dinheiro ou a ausência dele não justifica tudo, no caso em apreço essa premissa consegue ser ainda mais verdadeira. Senão vejamos: a Justiça afundada numa mais do que evidente ineficácia; a complexidade e permanente mutabilidade do contexto fiscal; o menosprezo e pequenez com que se olha para a importância da cultura; as constantes alterações no sistema educativo; a organização e funcionalidade da Administração Pública; a corrupção e a incapacidade da justiça a fazer o seu combate; o compadrio tão característico; a promiscuidade entre poder político e poder económico; a tibieza do sector empresarial português; a inexistência de tecido produtivo. Só para citar alguns exemplos de verdadeiros óbices ao desenvolvimento do país que permaneceriam, com ou sem défice; com ou sem dívida.
De um modo geral, trata-se de um conjunto de opções, escolhas, estratégia. Estratégia essa que este Governo está longe de possuir. Imaginemos.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O desnorte

O Estado espanhol está a ter severas dificuldades em se financiar, as taxas de juro exigidas são incomportáveis e o desnorte instala-se. O estranho episódio de um comunicado, alegadamente conjunto, de Espanha, Itália e França a pedir " a rápida execução dos acordos europeus", de imediato desmentido precisamente por responsáveis franceses e italianos vem contribuir para a imagem de extrema fragilidade de Espanha. O desnorte está instalado.
Não se percebe com precisão o que se terá passado com esse pedido que veio mais tarde a ser desmentido. Porém, se se esperava alguns laivos de solidariedade será precisamente agora que os países se afastarão dos mais fragilizados.
Espanha encontra-se isolada, tal como outros no passado recente. A Europa à imagem da Alemanha é precisamente assim. Quanto mais fragilizado um país está, maior isolamento encontrará. Espanha é hoje devastada pela especulação.
Lembrar-nos-emos sempre da frase Portugal não é a Grécia; Espanha não é Portugal, etc.

terça-feira, 24 de julho de 2012

"Que se lixem as eleições"

A frase prosaica é de Pedro Passos Coelho. "O que interessa é Portugal". Com efeito o mais apropriado seria "que se lixem os Portugueses", "o que interessa são os mercados, a Troika, a Merkel e os meus outros donos". Mas isso é só um aparte.
Desta forma, o primeiro-ministro tentou mostrar a sua firmeza em seguir o melhor caminho para Portugal, mesmo que esse caminho custe as próximas eleições. Claramente se tentou passar com esta frase a ideia de que estes senhores estão dispostos a tudo para alcançar uma hipotética recuperação da economia portuguesa, quando na realidade o caminho seguido - pintado com as cores da inevitabilidade - tem sido o do empobrecimento deliberado. O caminho seguido é vantajoso para quem realmente tem poder neste país: redução dos custos do trabalho e enfraquecimento das relações laborais com clara vantagem para as entidades patronais (a isto acresce a precariedade gritante que tem sido agravada pelas elevadas taxas de desemprego) e o desmantelamento do Estado Social com as inerentes oportunidades de negócio que todos conhecemos. A crise é o pano de fundo ideal para levar a cabo um projecto que há muito era ambicionado. Passos Coelho é o executor.
"Que se lixem as eleições" diz Passos Coelho. Apetecia-me aproveitar a frase, procedendo a ligeiras alterações, mas a educação não me permite.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Com ou sem resgate...

...Espanha continua a ter acentuadas dificuldades em se financiar. Esta manhã os títulos de dívida espanhola, no prazo a dez anos, atingiram novo recorde, as taxas de juro atingiram os 7,5 por cento. Recorde-se que o Parlamento espanhol aprovou na semana passada novas medidas de austeridade, com medidas que vão desde o corte do subsídio de Natal dos funcionários públicos até ao aumento do IVA. Pelos vistos, as medidas recessivas ainda não convenceram os mercados, ou talvez, paradoxalmente, não os convençam precisamente por se tratarem de medidas recessivas.
A verdade é que com resgate, com a promessa de salvar a banca espanhola, os mercados continuam a ser ingratos para o país vizinho. Não é que a situação italiana seja particularmente melhor. A Estado italiano também encontra dificuldades em se financiar a taxas de juro que não resvale para a usura. A situação grega continua periclitante e por cá a economia real enfraquece a cada dia que passa. Aparentemente, escapa o caso irlandês, depois de um ensaio de ida aos mercados relativamente bem sucedido, mas mesmo neste caso, o crescimento do país é anódino.
Este conjunto de países a que se juntam outros para além do Chipre, cujas dificuldades das economias crescem de dia para dia fazem parte de uma Eurpa de rumo traçado pela Alemanha, rumo esse repleto de desastres com um peso incomensurável para os seus cidadãos.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Manifestações em Espanha

As manifestações de descontentamento face às políticas de austeridade, com especial incidência nas últimas anunciadas pelo Governo de Mariano Rajoy têm sido recorrentes em Espanha. Ontem tiveram lugar oitenta manifestações, com milhares de Espanhóis a contestaram a austeridade.
As medidas anunciadas por Mariano Rajoy, como contrapartida ao resgate à banca, são onerosas para os Espanhóis e contraproducentes para a economia do país, exemplos de países que seguiram as mesmas políticas, cometeram os mesmos erros, não faltam.
De resto, a aplicação de medidas de austeridade que tem contado com a resignação dos cidadãos, embora a Grécia tenha dado exemplos em sentido contrário, será mais difícil no caso espanhol. Como exemplo diametralmente oposto temos o caso português onde se mistura a resignação e o desinteresse, resultando num estado de apatia ou até de rejeição da realidade verdadeiramente patológico.
Perante o retrocesso social a que temos assistido, muito em particular no último ano, a resposta dos Portugueses tem sido nula ou através de uma anuência subserviente. É por demais evidente que qualquer mudança virá forçosamente de fora do país.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Queda do regime

Os combates entre o regime sírio do Presidente Bashar al-Assad e as forças rebeldes do Exercito Livre estão a mostrar-se desvantajosas para o regime de al-Assad. Ontem o dia foi trágico para o ainda Presidente Sírio, as forças rebeldes conseguiram aniquilar quatro alto responsáveis do regime. Agora as notícias que chegam da Síria dão conta que os combates já se travam às portas do regime em Damasco.
A queda do regime de al-Assad poderá estar por dias ou semanas. Há mesmo informações que dão conta que a primeira dama já não se encontra em território sírio, mas antes na Rússia.
Infelizmente, as vítimas continuam a fazer-se entre o povo.
Por conseguinte, tudo indica que se trata apenas de uma questão de tempo até o regime cair. O dia seguinte da Síria é outra incógnita. Assim como desconhecemos o limite de Bashar al-Assad. Até onde poderá este homem ir para garantir a sobrevivência do regime?

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Enfraquecimento do Estado Social

A pretexto da crise, da quase bancarrota do país - da qual Pedro Passos Coelho e os seus acólitos nos salvaram -, da insustentabilidade do sistema público, do facto dos privados conseguirem melhores níveis de eficácia, da mudança do mundo, e de outras presumíveis evidências, o Estado Social vai saindo enfraquecido.
Desta vez, o alvo são as urgências. Segundo um grupo de peritos, haverá doze urgências para fechar. A lógica insere-se quer na perspectiva economicista do que resta do Estado Social, quer na perspectiva de abertura de novos negócios na área da saúde. Quanto à qualidade de vida dos cidadãos, com especial incidência para quem vive no interior do país, essa questão simplesmente não se coaduna com as políticas de empobrecimento do Governo, sejam elas ou não suportadas por "peritos".
O que é facto é que tem sido graças ao Estado Social que as convulsões sociais em épocas de crise não foram significativas. Pense-se no que seria de muitos países se os mesmos fossem desprovidos de sistemas sociais nesta crise. Se a deterioração das condições de vida de muitos cidadãos europeus é bastante assinalável, imagine-se como seria essa deterioração sem uma rede de segurança social. O Governo português vai seguindo o caminho do enfraquecimento do Estado Social. As consequências poderão ser mais nefastas do que se espera.
Por enquanto o encerramento de doze urgências é apenas uma proposta, mas também é um proposta que se coaduna na perfeição com as políticas seguidas pelo Governo de Passos Coelho.