sexta-feira, 15 de junho de 2012

Ainda a chantagem

A ver vamos se a chantagem que tem sido feita à Grécia surte algum efeito. As eleições decorrem já neste domingo e delas se espera que saia uma possibilidade de Governo, apesar das sondagens não mostrarem isso com clareza: o partido incessantemente catalogado como sendo de esquerda radical, Syrisa, e o partido de centro-direita, Nova Democracia, estão muito próximos um do outro nas intenções de voto.
De resto, a chantagem fez o seu caminho e ainda hoje o Presidente do Bundesbank fala de chantagem, de outro tipo de chantagem. O senhor em questão afirma em entrevista que "não nos devemos deixar chantagear por um país por medo de contágio" e quem não cumpre com a austeridade férrea "arrisca-se a sair do euro".
Pelo caminho, a democracia, o respeito pelo voto livre e consciente são questões menores num cérebro conspurcado pela mais gritante ortodoxia económica da Europa.
É à Grécia que a Europa tanto deve. Foi na Grécia que a democracia eclodiu. Será a Grécia a voltar a dar uma lição de democracia, pese embora pressão a que tem sido submetida nos últimos anos? No domingo veremos.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A preparação

Os planos de contingência para uma eventual saída da Grécia do Euro abundam pela Europa e não só. Desta vez é notícia que a banca nacional está a adoptar planos de contingência preparando-se assim para a saída da Grécia do Euro e para a subsequente fuga de depósitos.
A Grécia prepara-se para eleições. A possibilidade daquilo que é designado por extrema-esquerda vencer as eleições inquieta as instituições europeias e a banca. Em nenhum momento as mesmas instituições europeias e alguns líderes europeus mostram dar qualquer importância ao conceito de democracia e a um dos seus expoentes máximos: eleições (num contexto de escolha livre).
Resta-nos esperar até ao próximo dia 17 deste mês para perceber se a chantagem e o medo venceram. Até lá vão saindo notícias que dão conta da preparação para a saída da Grécia do Euro. Se essa saída se coaduna com o que está escrito nos tratados ou se há algum respeito pelo que resta da democracia passaram a ser questões de somenos.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Espanha e o precedente

Agora foi a vez de Espanha necessitar de "ajuda". Um plano diferente daquele aplicado aos três países que entretanto já foram alvo de intervenção. Um plano que dispensa novas medidas de austeridade. O problema está no precedente. Agora é a vez da Irlanda cuja intervenção incidiu sobre o seu sector bancário exigir as mesmas condições agora aplicadas a Espanha.
Abre-se um precedente e a Europa continua na sua rota descendente. O plano agora aplicado a Espanha não é solução para os problemas, será no máximo um mero paliativo.
Por cá Pedro Passos Coelho, sempre tão cioso dos interesses alemães, insiste que Portugal não precisa de dilatações de prazo nem quaisquer outras alterações ao memorando de "assistência". O primeiro-ministro Português têm feito um trabalho exímio na defesa dos interesses alemães.
Vamos ver até onde pode ir a capacidade de negociação irlandesa. Uma coisa é certa: com a "ajuda" a Espanha, nos termos em que o plano será aplicado, foi aberto um precedente.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A difícil situação espanhola II

A Zona Euro faz lembrar aquelas alas dos hospitais onde são colocados os doentes que padecem de males contagiosos. Os médicos vão variando a sua atenção consoante o agravamento do estado de saúde dos pacientes e fora da ala fazem-se profecias sobre o derradeiro suspiro (incumprimento e saída do Euro) dos pacientes. Este paralelismo vem no seguimento de outros proferidos por eminentes figuras que recorrem a "doenças", "remédios" e "curas" para explicar a situação económica do país e da Europa, esquecendo-se, porém de dizer que a doença de que tanto falam tem um nome.
Seja como for, as atenções estão agora centradas em Espanha. Há mesmo quem diga que Espanha poderá sair do Euro ainda antes da Grécia. O que é certo é que a situação na Europa vai-se deteriorando de dia para dia. No caso espanhol fala-se da crise de um sector específico - o sector financeiro, mas não é certo que as contas do Estado espanhol esteja em muito melhor situação, isto segundo os parâmetros do neoclassicismo económico que vingou na Europa.
Como é que se vai "salvar" a quarta maior economia da Zona Euro? A resposta não é clara. O que é evidente é que o receituário neoliberal falha estrondosamente e que todos falam de doenças, remédios e curas, menos na doença que interessa falar: o capitalismo financeiro que grassa num mundo globalizado.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

As virtudes da paciência

As virtudes da paciência servem na perfeição dirigentes políticos que apostam na tese da inevitabilidade. Não sei se será tanto o caso de Pedro Passos Coelho que se lembrou de demonstrar compreensão pelos problemas dos cidadãos e elogiar a sua paciência. Porventura, Passos Coelho estará a confundir paciência com submissão e ausência de esperança mais própria da resignação do que da paciência de quem ainda espera dias auspiciosos.
Sendo ainda verdade que paciência também é sinónimo de resignação e sofrimento. E nestas acepções Pedro Passos Coelho é certeiro.
De resto, temos adoptado mais a postura da inércia - em relação a este Executivo como em relação a outros, nestas matérias como noutras - do que propriamente da paciência.
Todavia, essa inércia ou paciência como lhe chama o primeiro-ministro poderá não ser tão duradoura como se possa eventualmente esperar. Ninguém sabe até que ponto um povo aguenta sacrifícios, miséria, retrocesso social e aniquilação da esperança. Enquanto se insiste em discutir qual o ponto a partir do qual não se pode aumentar mais impostos, ou até onde se pode cortar na Saúde e Educação, ou ainda se se deve cortar ainda mais os magros salários, eu, no lugar do primeiro-ministro, preferia questionar-me até quando os Portugueses vão manter-se pacientes.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Um ano de Governo

Não há qualquer razão para comemorações no dia em que se cumpre um ano de Governo, embora o Governo só tenha tomado posse no dia 21 deste mês. Um ano marcado pela aplicação da receita da Troika, com a constante ambição de ir ainda mais longe do que a receita que noutras circunstâncias tantas vezes falhou.
Um ano marcado pela tibieza do Governo, pelas tristes situações sem consequências envolvendo o núcleo duro do Executivo, designadamente o caso Relvas; um ano marcado pela total insensibilidade social, primeiro com recomendações aos jovens para que estes saiam do país, depois com comparações entre o desemprego e oportunidades e, finalmente, com a inatingível relação entre o desemprego e o "coiso". Um ano marcado pelas políticas neoliberais tão pouco consonantes com a própria democracia.
Um ano marcante para muitos cidadãos que saíram do país e outros que por cá ficam entregues à miséria e à mais inexorável ausência de esperança.
Finalmente, um ano de resignação de uns (infelizmente a maioria) e de luta para outros. Um ano que se espera, não se repita. Um ano que seguramente se repetirá enquanto a resignação for a regra da maioria.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Resgate

Agora é a vez do Chipre, na pessoa do Governador do Banco Central do país, poder solicitar apoio à União Europeia para recapitalizar a banca. Segundo o Governador do Banco Central Cipriota, a exposição da banca nacional à dívida grega estará na origem da descapitalização da banca nacional e de um eventual pedido de resgate.
Espanha evita a todo o custo chegar ao ponto de enveredar pelo mesmo caminho apontado pelo Governador do Banco Central Cipriota, não se sabe durante quanto tempo conseguirá a quarta maior economia da Zona Euro evitar o tal pedido de resgate.
Portugal, Grécia e Irlanda mantêm-se, por enquanto, os únicos países a socorrer-se de um resgate. Na Grécia, o desastre é total; em Portugal o empobrecimento grassa de dia para dia e a Irlanda continua a pagar juros altíssimos cada vez que se socorre dos mercados secundários.
A Europa, mantendo a mesma linha político-económica afunda-se. O modelo, em particular do Banco Central Europeu, nem sequer é posto em causa pelos países que dominam politica e economicamente a Europa. Os outros, os subservientes, como é o caso de Portugal alinham com a estratégia da Alemanha. O destino é inevitável e todos pagarão a factura. Uns terão mais capacidade para recuperar, outros nem tanto.