quarta-feira, 30 de maio de 2012

Os elogios

Não há ainda razão para cantar vitória, mas a agência de notação financeira Moody's e um ministro Holandês fizeram elogios cautelosos ao progresso da economia portuguesa.
A Moody's cuja preponderância, a par das outras agências, é excessiva, a mesma que concedia notações elevadas à Islândia, por exemplo, e à outrora sofisticação financeira que de um dia para o outro se transformou em produtos tóxicos. O ministro holandês de um país, cujos responsáveis políticos não se coibiam de dar lições de moral aos países do sul, mas cujo défice ultrapassou a barreira dos três por cento.
Os elogios são contidos, mas nem por isso deixam de ser elogios que esbarram na triste realidade de muitos cidadãos que assistem a um retrocesso social sem paralelo.
Por outro lado, existe a Grécia, o Estado pária que sofre chantagens dos mercados, das instituições europeias e das pseudo-democracias ou Estados-membros da UE. Uns merecem elogios, os outros reprimendas e até comentários ofensivos, nem que tudo isso sirva para repensarem as escolhas aparentemente democráticas que têm de fazer em meados do mês que se aproxima.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O rídiculo

Christine Lagarde, directora do FMI, disse estar mais preocupada com as crianças do Niger do que com os pobres na Grécia. Afinal de contas os Gregos, segundo Lagarde, fogem aos seus impostos. Segundo as declarações simplistas e simplórias da directora do FMI, os Gregos estão a atravessar as dificuldades que todos conhecem por não pagar os seus impostos e, por conseguinte, não merecem a sua compreensão.
Ora, as declarações desta senhora provocaram um coro de protestos na Grécia, mas também no seu país de origem. É novamente o processo de culpabilização da Grécia.
Curiosamente, nas tais declarações, Lagarde esquece-se do papel do seu FMI na crise grega e nas ditas crises da dívidas soberanas, a participação da Goldman Sachs na falsificação das contas gregas, a receita desastrosa de que é apologista e que está a destruir o pais e a Europa. Além do mais, esquece-se que muitos gregos pagam uma carga fiscal incomportável. Todas as generalizações são, por natureza, abusivas.
Mas a cereja em cima do bolo é o facto de Lagarde, com o seu estatuto diplomático, auferir 380 mil euros em salário, sem pagar impostos. A senhora perdeu por completo a noção do rídiculo e voltou a incorrer no erro de apontar o dedo, num moralismo de trazer por casa, quando ela própria é uma excepção. A senhora Lagarde ao invés de perder tempo com afirmações saloias e ofensivas, faria melhor se tirasse alguns minutos para ler o novo poema de Günter Grass sobre a Grécia e sobre a Europa. Sairia muito mais enriquecida.
Seja como for, a verdade é que esta visão de Lagarde a par das pressões a que os Gregos estão sujeitos até ao próximo dia 17 de Junho, dia de eleições, correm o sério risco de colher os seus frutos. O medo é uma arma muito eficaz, não restam dúvidas. E quando as ameaças que pairam sobre a Grécia, assentes na sua expulsão da Zona Euro, são diárias, o efeito psicológico poderá dar vantagem ao partido da Nova Democracia. A campanha do medo está no terreno.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A difícil situação espanhola

Os principais líderes europeus, preocupados com o resultado que sairá das próximas eleições gregas, têm entre mãos um problema ainda mais grave: a situação espanhola.
Espanha, até à bem pouco tempo, era considerada por muitos um exemplo a seguir, inclusivamente no que diz respeito aos seus níveis de endividamento que continuam a estar longe dos valores alcançados por outros países da zona Euro.
Hoje constitui um problema. A bolha imobiliária e a fragilidade do seu sector bancário são problemas sem solução à vista. O Estado espanhol vai agora injectar - dinheiro dos contribuintes - 19 mil milhões de euros no banco Bankia, dinheiro que agravará a situação das contas públicas espanholas. A questão é a de saber até quando os cidadãos - muitos não escondem o seu acentuado descontentamento - aceitarão este misto de austeridade e de injecção de dinheiros públicos em bancos.
De qualquer modo, o que é certo que é o Estado espanhol tem dificuldades crescentes em se financiar e as famigeradas agências de notação financeira ajudam à festa com cortes na notação financeira, muito em especial dos bancos. Uma das regiões mais ricas do país - a Catalunha - já fez saber que atravessa dificuldades. Outra questão interessante é a de saber se haverá dinheiro para "socorrer" a quarta economia mais forte da Zona Euro, como se fez com Grécia, Irlanda e Portugal. Dificilmente.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Liberdade de expressão

É indubitável que por cá a liberdade de expressão está longe de ser valorizada, até mesmo por aqueles que a deveriam proteger: os tribunais. Como se explica então, numa pretensa democracia, a decisão de apagar os comentários num blogue que se insurgiu contra práticas abjectas de uma empresa? A publicação de uma denúncia de fraude na contratação por parte de uma empresa de trabalho temporário passou para segundo plano. O que interessa é salvaguardar o bom nome da empresa e abafar quaisquer críticas.
A explicação para estas anormalidades passa por essa fraca valorização que se dá à liberdade de expressão. Assim como pouco ou nada valorizamos tudo o que esteja vagamente relacionado com a cultura.. Ora, afogados nesta pequenez de espírito, dificilmente conseguiremos sair do atoleiro de problemas em que estamos metidos.
Existe uma multiplicidade de razões que explicam o atraso desta nossa terra. Não tenho dúvidas que a nossa incessante desvalorização da democracia e da cultura, encarada por muitos como sendo um sorvedouro de dinheiros públicos, aliadas à nossa estreiteza de espírito explicam muito do que se tem passado neste país nas últimas décadas - para não ir mais longe.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Parcerias

O Governo está a preparar uma renegociação ao nível das famigeradas parcerias público-privadas, O ministro da Economia, também conhecido por Sr. Coiso, fala numa renegociação de trinta por cento.
Desde há muito que alimento a ideia de que os cidadãos pouco sabem sobre estes e outros negócios ruinosos que foram feitos ao longo de largas décadas. A informação escasseia e o interesse, de um modo geral, também não abunda.
Seja como for, sabe-se que as ditas parecerias público-privadas, em particular as de natureza rodoviária, têm custos incomportáveis e oneram várias gerações. Consequentemente, a sua renegociação é um imperativo para que se possa aliviar o país de mais este encargo.
Por aquilo que se depreende das palavras do ministro da Economia, esta renegociação poderá surtir os seus efeitos, embora não se conheçam em detalhe os pormenores das negociações.
Em Portugal há quem tenha ganho muito com um negócio que mais não é do que uma renda sem que para isso tenha arriscado fosse o que fosse. Ganham concessionárias, construtoras, banca. Perderam os Portugueses, pertencentes a várias gerações.
A notícia de uma inevitável renegociação é, de um modo geral, positiva.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Mais austeridade

É esse o entendimento da OCDE cujas previsões económicas para o nosso país conseguem ser ainda mais pessimistas do que as demais. Segundo a análise desta organização internacional, Portugal, para que cumprir as metas orçamentais, terá ainda de adoptar mais medidas de austeridade. O ministro das Finanças já recusou essa necessidade. Porém, o aviso está feito.
Embora se comecem a notar sinais de alguma inversão nas doses cavalares de austeridade - designadamente desde a eleição de François Hollande -, a verdade é que não existe uma vontade significativa de inverter o rumo dos acontecimentos. É isso que se depreende da análise da OCDE ou das indicações que a Chanceler alemã que afirma que este não é o momento para se abrandar no caminho da austeridade.
Entretanto, o desemprego ganha proporções colossais no seio da UE; o retrocesso social é visível a cada dia que passa, em particular nos países que são alvo de intervenção económica externa.
Por cá, o Governo entretém-se e entretém os senhores da Troika. Mário Soares não gosta. O país, pelo menos uma parte significativa, refugia-se na resignação.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Dois pesos, duas medidas

Quando José Sócrates era primeiro-ministro foi incessantemente acusado de ter - para utilizar um eufemismo - uma relação difícil com a comunicação social. Foram inúmeras as críticas ao então primeiro-ministro. Todos certamente ainda nos lembramos do clima "de asfixia democrática" de que ele era acusado de ter criado em Portugal.
Miguel Relvas não parece merecer a mesma atenção e o mesmo tratamento. Depois das acusações de ter pressionado uma jornalista, incluindo ameaças de revelações de detalhes da sua vida privada, não assistimos às mesmas reacções. Talvez o melhor que se consiga seja um "não comento" ou "é prudente aguardar as conclusões da entidade reguladora".
Este blogue sempre foi muito crítico dos anos Sócrates, inclusivamente no que dizia respeito à sua relação com a comunicação social.
Todavia, fugindo à premissa dos dois pesos e duas medidas, importa relembrar que o caso de Miguel Relvas é grave e são esperadas consequências, não se devendo sequer excluir a saída do ainda ministro do Executivo de Passos Coelho. Essa sim, seria uma boa notícia em tempos que as mesmas são tão raras.