terça-feira, 22 de maio de 2012

Dois pesos, duas medidas

Quando José Sócrates era primeiro-ministro foi incessantemente acusado de ter - para utilizar um eufemismo - uma relação difícil com a comunicação social. Foram inúmeras as críticas ao então primeiro-ministro. Todos certamente ainda nos lembramos do clima "de asfixia democrática" de que ele era acusado de ter criado em Portugal.
Miguel Relvas não parece merecer a mesma atenção e o mesmo tratamento. Depois das acusações de ter pressionado uma jornalista, incluindo ameaças de revelações de detalhes da sua vida privada, não assistimos às mesmas reacções. Talvez o melhor que se consiga seja um "não comento" ou "é prudente aguardar as conclusões da entidade reguladora".
Este blogue sempre foi muito crítico dos anos Sócrates, inclusivamente no que dizia respeito à sua relação com a comunicação social.
Todavia, fugindo à premissa dos dois pesos e duas medidas, importa relembrar que o caso de Miguel Relvas é grave e são esperadas consequências, não se devendo sequer excluir a saída do ainda ministro do Executivo de Passos Coelho. Essa sim, seria uma boa notícia em tempos que as mesmas são tão raras.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

As esperanças do Presidente

Cavaco Silva expressou a sua esperança que a Troika concilie austeridade e crescimento. A sua esperança saiu reforçada depois dos resultados da Cimeira do G8 onde as conclusões são semelhantes. As esperanças do Presidente da República pouco ou nada me dizem e tenho a convicção que o mesmo se passará com os inefáveis senhores da Troika.
Não se percebe muito bem como é que se poderá conciliar proficuamente austeridade com crescimento económico e emprego. Este paradoxo não é convenientemente abordado pelo Presidente da República, à semelhança de outros. Ora para haver lugar a crescimento e à criação de emprego é necessário um contexto onde as medidas de austeridade não têm lugar. As ditas medidas expansionistas têm dificuldades em se coadunar com a ditadura de austeridade que tantos estragos já provocou.
E como é que reagirá a Chanceler alemã a este pretenso abrandamento da austeridade? E Passos Coelho? E outros que encontram na austeridade fonte de excitação?

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Chegou, venceu e cumpriu

Chegou, venceu e cumpriu. Pelo menos no que diz respeito à redução de salários do Executivo que lidera, embora também já tenha cumprido o que prometeu em matéria de idade de reforma, por exemplo. Hollande, o novo Presidente Francês, mostra ter vontade em cumprir as medidas anunciadas na campanha eleitoral. A medida em concreto é simbólica, mas também moralizadora em tempos de forte clivagem entre cidadãos e os seus representantes políticos.
É evidente que ainda é cedo para se tirar o pulso à concretização das medidas anunciadas por François Hollande, mas não deixa de ser auspicioso que o recém eleito Presidente Francês tenha demonstrado vontade um cumprir exactamente o que prometeu.
Para nós Portugueses e Europeus interessa saber mais sobre o Tratado Europeu cozinhado por Merkel e por Sarkozy (no seu tempo aumentou o salário do Executivo ao contrário de Hollande). Essa é uma questão central para o mandato de Hollande. Caso não lute por outro Tratado, será convivente com o enfraquecimento da democracia - o Tratado impõe uma política económica altamente restritiva que torna o acto eleitoral de certa forma redundante, na precisa medida em que os cidadãos não podem escolher as políticas económicas que consideram convenientes.
Hollande já referiu a necessidade do Tratado contemplar o crescimento económico. Mas isso não chega. Num mundo próximo da perfeição, Hollande já estaria a lutar por uma Europa mais solidária; uma Europa com uma Banco Central digno desse nome, longe dos interesses da Banca privada; uma Europa com um Orçamento significativo; uma Europa onde a uniformização fiscal fosse uma realidade; uma Europa com um banco de investimento que servisse para isso mesmo - investimento; uma Europa que lutasse pelo combate às assimetrias sociais entre os diversos Estados-membros; uma Europa que se afastasse da tecnocracia e que se aproximasse dos cidadãos.
Infelizmente, ainda estamos muito longe dessa quase perfeição.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Um ano de Troika

Um ano de Troika. Um ano de retrocesso social. Um ano de pobreza. Um ano de ataques ao Estado Social. Um ano de supressão de uma perspectiva de futuro. Um ano de mentalização ou saída efectiva do país. Um ano de neoliberalismo em todo o seu esplendor. Um ano de desemprego. Um ano de promessas num amanhã melhor, depois da inevitabilidade das medidas. Um ano da preponderância do dinheiro sobre tudo o resto. Mais um ano de resignação.
Um ano de Troika.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Eleições na Grécia

Depois de uma miríade de negociações falhadas, a Grécia volta a eleições para a escolha de um Governo. O resultado foi imediato: na sua aversão aos conceitos de democracia, as bolsas caíram; a directora do FMI referiu a possibilidade da Grécia sair "ordenadamente do euro", a Alemanha já mostrou a sua indisponibilidade renegociar a ajuda à Grécia.
Não restam quaisquer dúvidas que estas próximas eleições vão ter como pano de fundo um clima de incessante chantagem, muito em particular quando as principais sondagens apontam como vencedor o partido Syrisa, considerado como estando demasiado à esquerda do espectro político.
A Grécia é a prova viva como os mercados encontram dificuldades crescentes em conviverem com a democracia. Não é excessivo afirmar que mercados e democracia não se coadunam, o que nos leva a uma discussão que merecia mais profundidade.
As eleições na Grécia voltam a inquietar os principais líderes europeus que há muito esqueceram a importância dos sistemas democráticos e mais se comportam como meros lacaios do sector financeiro - o mesmo que está a destruir as vidas dos cidadãos. Há sinais na Europa que a paciência com os ditos mercados e as políticas de austeridade aproxima-se de um fim, mas nem assim, os arautos desta ditadura percebem o caminho sinuoso que insistem em percorrer.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Preocupações

Governo, Banco de Portugal, representantes das principais instituições da União Europeia, comentadores, etc, todos mostram preocupação com os elevados números do desemprego. Uns têm dificuldades em dormir à noite, outro vêem no desemprego uma nova oportunidade (sim, as palavras foram proferidas, não se trata de uma infeliz piada), outros ainda mostram apenas uma ténue preocupação com a proliferação de desempregados.
Todos têm em comum a apologia da austeridade como panaceia para todos os nossos males. Neste cenário de morte lenta tão do agrado destes senhores, o desemprego é uma das consequências mais óbvias.
Quanto às receitas para combater este flagelo são as da cartilha neoliberal: menos direitos para os trabalhadores, despedimentos mais fáceis a mais rápidos. O resultado está à vista. Falências, desemprego, pobreza. Tira-lhes o sono, inquieta, percepcionam novas oportunidades. Não há dúvida que estes senhores vivem completamente desfasados da realidade e para alguns também lhes fica bem mostrarem estas e outras preocupações, apesar de serem co-responsáveis pela situação verdadeiramente insustentável que muitos atravessam.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Crise grega

Sob a ameaça de saída - expulsão é o termo mais indicado - do Euro, a Grécia continua a procurar uma saída para a crise política resultante das últimas eleições. Os sacrossantos mercados dão sinais de forte inquietação e os principais líderes europeus insistem nas ameaças cada vez menos veladas.
Outro problema que se avizinha quer para a ditadura neoliberal instalada na Europa quer para os próprios mercados prende-se com a possibilidade de um partido considerado de extrema-esquerda poder vencer as próximas eleições.
Assim, a crise grega continua a fazer o seu caminho. O país, cansado das receitas de austeridade, prepara-se agora para um novo período eleitoral, sob permanentes ameaças de expulsão da moeda única.
Continua a ser paradoxal e exasperante ver-se o berço da democracia ver essa mesma democracia permanentemente condicionada. A escolha dos eleitores está desde logo condicionada pela ameaça de saída do Euro. Ainda assim, a haver eleições é muito provável que a tal esquerda radical consiga vencê-las. Resta saber igualmente, caso esse cenário se concretize, como é que determinados sectores da sociedade grega vão reagir, muito em particular, as forças armadas.