sexta-feira, 11 de maio de 2012

Ir para a rua

Nem de propósito, o secretário-geral do Partido Socialista, António José Seguro, disse em entrevista que estava disposto a ir para a rua caso o Governo ponha em causa as funções sociais. O líder do PS tem já amanhã, dia 12 de Maio, uma oportunidade de ouro de ir para a frente de uma manifestação, desta vez global, isto porque o Governo já está a pôr em causa as funções do Estado.
O Executivo de Passos Coelho, escondido invariavelmente no memorando da Troika e na teoria da inevitabilidade, tem continuamente posto em causa as tais funções sociais de que Seguro falou. É assim na Saúde, com cortes substanciais e taxas moderadoras que nada fazem pelo pretenso equilíbrio do SNS, apenas afastam quem necessita de serviços médicos; é assim na educação e ensino superior - são muitos os que abandonam os estudos por dificuldades económicas; e será brevemente assim na Segurança Social com pretensões de privatizar, descapitalizando o sistema e voltando a engordar os do costume.
A isto acresce o aumento de impostos, reduções de salários, desemprego, pobreza, fome, o que consubstancia um retrocesso social sem paralelo nas últimas décadas.
Por conseguinte, sobram razões para que António José Seguro possa juntar-se àqueles que amanhã se manifestam em sete cidades portuguesas e em muitas outras na Europa e no mundo. Há apenas um pequeno senão: Seguro insiste em não romper com o acordo da Troika, por uma questão de coerência, esquecendo-se no entanto que é precisamente esse alinhamento que enfraquece a posição de uma parte da esquerda.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Ainda o 1º de Maio

O presidente do grupo Jerónimo Martins, Alexandre Soares dos Santos, em entrevista a um canal de televisão rejeitou a prática de dumping e assegurou que este tipo de promoções (de cinquenta por cento) não se voltarão a repetir. Até aqui, não há muitos comentários a fazer, o presidente do grupo tem naturalmente direito a fazer a sua defesa. Resta, porém, saber se não houve lugar à prática de dumping. Compete à entidade reguladora e fiscalizadora investigar e chegar às suas conclusões.
Todavia, Alexandre Soares dos Santos, afirmou não ver qual o problema da mesma campanha se ter realizado no primeiro de Maio, insurgindo-se mesmo contra aqueles que se inquietaram com o facto. Acrescentou também que a campanha do Pingo Doce retirou visibilidade ao dia. Ora, não é seguramente uma campanha de um supermercado medíocre que retira visibilidade ao primeiro de Maio, o que eventualmente terá dado visibilidade ao Pingo Doce terá sido a selvajaria que se instalou nos seus supermercados, numa clara tentativa de aproveitamento da miséria e do desnorte que por este país grassa.
Não causa qualquer admiração que o presidente do grupo em questão não dê qualquer importância ao dia escolhido para a realização da duvidosa promoção. Este é um senhor que dá mais importância a outras questões - recomendo o visionamento do documentário "Os donos de Portugal" para se perceber o funcionamento deste e de outros senhores e das suas famílias.
Apesar de ter perdido um tempo considerável a escrever, novamente, sobre a campanha do Pingo Doce, senhores como este não são o que mais me inquieta. O que mais me inquieta é a passividade reinante. Não é apenas o Sr. Soares dos Santos a dar pouca importância ao primeiro de Maio. Outros, muitos deles trabalhadores, esquecem o significado do dia - os mesmos que ainda beneficiam do resultado de lutas para que os direitos que hoje nos tiram viessem a ser uma realidade. É, no mínimo, irónico.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O impasse grego

A situação na Grécia, após as eleições de Domingo, permanecem pouco claras. O segundo partido mais votado, não obstante o bónus de deputados atribuído ao primeiro mais votado, continua em negociações com vista à formação de um Governo.
Porém, tudo indica que a Grécia vai passar por novas eleições e o próprio líder do partido incessantemente caracterizado como sendo de esquerda radical - o Syrisa - também parece agir em conformidade.
O incómodo para a Europa é notório. Desde logo o impasse, depois a possibilidade, embora remota, de um partido que pretende romper com as políticas advogadas pelos principais líderes europeus inquieta quem não se coíbe de insistir na inevitabilidade. A vitória de Hollande em França também não contribuiu para apaziguar aquelas almas que dirigem a Alemanha e se passeiam pelas instituições europeias.
O impasse grego acabará por redundar na convocação de novas eleições. A tarefa do Syrisa não é fácil - o partido comunista grego, agarrado a uma ortodoxia exasperante, é só mais um exemplo dessa dificuldade.
De qualquer modo, sente-se uma ténue mudança, ou pelo menos a intenção de uma mudança na Europa. Os Franceses disseram não a Sarkozy - o mesmo Presidente que alinhou ferozmente nos ditames alemães; os Gregos disseram não à austeridade, à pobreza, ao retrocesso social, castigando os partidos apologistas desse mesmo caminho. De resto, é curioso verificar que o dito partido de esquerda radical que está em negociações para formar Governo apresenta propostas que não são mais do que a procura de mais justiça num país dilacerado pela incúria dos seus governantes e pela voracidade daqueles que professam a ideologia dominante na Europa - a mesma ideologia que nos trouxe até à tão famigerada crise.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Instabilidade política na Grécia


Uma das consequências notórias da crise económica e social que assola fortemente a Grécia é a inexistência de estabilidade política. Das eleições realizadas no passado domingo não saiu, tal como se esperava, qualquer maioria e o partido mais votado - Nova Democracia - já afastou a possibilidade de conseguir reunir consensos para governar. Resta assim, o segundo partido mais votado - o inesperado Syrisa que tenta negociar com outros partidos no sentido de formar uma coligação. As probabilidades de o conseguir são escassas.
A possibilidade da convocação de novas eleições ganha assim forma. Seria preferível. no entanto, que desta mais recente negociação saísse uma coligação com capacidade para governar. Seja como for, a democracia nem sempre é sinónimo de estabilidade ou da estabilidade que mais convém. Algumas características do sistema eleitoral grego talvez também merecessem revisão.
De qualquer modo, não restem dúvidas que estas incertezas e a mera possibilidade da esquerda considerada mais radical vir a governar está a causar acentuado exacerbamento aos principais líderes europeus. Assim como não sei muito bem como parte da sociedade grega reagirá caso a dita esquerda considerada mais radical conseguir reunir os consensos necessários para governar. Quanto à necessidade de rupturas não tenho quaisquer dúvidas.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Eleições

Embora a democracia esteja longe de se esgotar no acto eleitoral, é sempre de louvar assistir a actos eleitorais que enriquecem a vida democrática. Foi precisamente a isso que se assistiu este domingo, em França e na Grécia. Os resultados esses merecem uma análise mais profunda.
No caso francês, a vitória esperada de François Hollande deixa antever alguma mudança na política francesa com claro impacto no contexto europeu. A dúvida reside no carácter afoito de Hollande e se este não sucumbirá à timidez das medidas, o que se poderá traduzir na não concretização do seu programa político. Seja como for, acredito na timidez dessas medidas, mas conservo alguma esperança que ainda assim, esta mudança traga claros benefícios para a Europa. Pelo menos o directório franco-alemão deixará de contar com a pujança dos tempos mais recentes.
Ainda em relação ao caso francês. importa olhar para o panorama da direita, agora com a saída anunciada de Sarkozy. Especialmente atente-se à subida da extrema-direita de Marine Le Pen.
Extrema-direita que também conheceu uma subida nas eleições gregas. Neste caso, a dispersão de votos complica a formação de um governo que exerça as suas funções com estabilidade política. A derrota do Pasok é de assinalar, assim como a ascensão do Syriza, partido de esquerda considerada radical. De qualquer modo, os partidos apologistas da austeridade como forma de resolver os problemas económicos do país não conseguiram uma maioria. O impasse já se avista, com consequências óbvias para toda a Europa.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Entrega da casa

Na auge da voracidade, banca, empresas construtoras atiraram-se aos cidadãos/clientes mais incautos como cães esfaimados. O crédito jorrava, as avaliações era megalómanas, construía-se como se não houvesse amanhã. Tudo isto foi permitido porque a classe política nas últimas décadas decidiu ser conivente com uma situação que mais dia menos dia atingiria um ponto de insustentabilidade.
Pelo caminho o mercado de arrendamento - sempre pouco dinâmico - nunca foi olhado com a atenção que merecia por quem toma as decisões políticas. O resultado está à vista: um mercado que se divide em rendas ridiculamente baixas e rendas escandalosamente altas, isto num contexto de acentuada degradação que destrói a beleza das cidades portuguesas.
Agora coloca-se a possibilidade de as famílias poderem entregar as casas aos bancos. Os níveis de incumprimento batem recordes todos os dias, deixando visível que está na hora de pagar a tal voracidade acima referida. Os bancos - principais responsáveis - não mostram disponibilidade para pagar essa factura.
É evidente que os bancos não estão dispostos a aceitar perdas e têm até ao momento evitado entrar em negociações significativas com quem está em situação de incumprimento. Ora, os mesmos bancos também não pretendem ficar com casas sobre-avaliadas, vão por essa mesma razão levantar todos os problemas possíveis e imagináveis à mera possibilidade da entrega da casa em dação de pagamento da dívida.
O mercado de arrendamento ainda está longe de oferecer resposta a quem não pode comprar uma casa. Não ofereceu no passado, continua a não oferecer hoje.
Assim, o país vê-se a braços com um problema que aumentará de dimensão a cada dia que passa. Os inúmeros políticos responsáveis por este estado de coisas, continuam a agir como se nada disto fosse com eles. Nenhum deles estará, certamente, prestes a perder a sua casa.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A miséria

A miséria mostra-se de várias formas. A mais evidente é aquela que implica a incapacidade de suprimir necessidades básicas. A mesma que terá levado muitos cidadãos a deslocarem-se a um conhecido grupo de supermercados para adquirir bens que lhes permitam suprimir essas necessidades durante meses.
Mas a miséria também pode adquirir outras formas que dificilmente podem contar com a compreensão dos outros. A pior forma é a miséria de espírito própria de quem se apropria indevidamente de um dia em que se celebram conquistas sociais para fazer promoções e ainda se vangloriar de estar a prestar um serviço aos cidadãos, quando na verdade apenas os sujeita a situações degradantes.
O melhor exemplo deste tipo de miséria pode ontem ser visto na TVI, onde um responsável pelo famigerado grupo tentou explicar o inexplicável. Pejado de boas intenções, o tal responsável não foi capaz de reconhecer que toda a situação é humilhante e que representa uma verdadeira afronta por decorrer precisamente no dia em que se celebram várias conquistas sociais que contribuíram para o desenvolvimento das sociedades.
A miséria de quem nos Governa é o contexto ideal para que estas e outras situações humilhantes continuem a ter lugar num país claramente à deriva. Há, no entanto, quem considere tudo isto normal.