sexta-feira, 27 de abril de 2012

Ainda sobre a teoria da inevitabilidade

O primeiro-ministro voltou a relembrar todo o peso da inevitabilidade. Assim, esta sumidade - não se sabe bem do quê - recorda que não há caminho mais fácil, relembra que o único caminho possível é este que estamos a percorrer.
A teoria da inevitabilidade tão do agrado de neoliberais que assentam a sua ideologia em pretensas convicções económicas neoclássicas insistem até à exaustão que este é o caminho. O único. Mesmo que as evidências os contrariem.
De facto, esta cegueira ideológica, que dá invariavelmente origem a um futuro promissor para os seus arautos, faz lembrar outros períodos da História marcados pelo totalitarismo.
Pedro Passos Coelho é um mero executante deste género de políticas, não é um pensador. E como bom executante que é, limita-se a repetir infinitamente as mesmas ideias, esperando assim manter uma espécie de paz podre.
Para o primeiro-ministro não são aceitáveis renegociações de qualquer espécie com a ditadura que tomou conta da Europa, juntamente com o FMI. Pelo contrário, procura-se ir ainda mais longe, destruindo-se assim o que resta do Estado Social e dos direitos dos trabalhadores.
Infelizmente para o primeiro-ministro, não me parece que consiga manter por muito tempo este estado de coisas.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Comemorações do 25 de Abril

Como é habitual a comunicação social deu particular ênfase às comemorações do 25 de Abril entre os deputados e Presidente da República, dando menos importância às comemorações do cidadão comum, designadamente àquela que teve lugar em Lisboa e que, apesar das péssimas condições meteorológicas, contou com a presença de muitos cidadãos.
Por conseguinte, das comemorações ficou apenas o discurso do Presidente e as críticas que se lhe seguiram. Com efeito, o discurso de Cavaco Silva pouco conforto traz a quem atravessa dificuldades. O discurso bacoco centrado na importância de como os outros (estrangeiros) nos vêem é mais um exemplo do afastamento da classe política relativamente aos cidadãos. O discurso continua a ser o da inevitabilidade, desta vez sublinhando a importância de percepções externas.
Ora, o 25 de Abril de 2012 foi muito mais do que isso e mais até do que as tão famigeradas ausências, até porque alguns dos ausentes preferiram comemorar a data junto ao povo por quem eles lutaram há largas décadas.
O 25 de Abril é mais do que umas páginas da História, é, hoje mais do que nunca, um processo em construção; um processo de continuidade. Hoje, mais do que nunca, devemos lembrar Abril pelos seus valores e ideias e perceber que esses mesmos valores e ideias são reiteradamente desrespeitados. Consequentemente, é fundamental, pensar, discutir e agir precisamente para não se perder o que resta e o que custou tanto a conquistar.

terça-feira, 24 de abril de 2012

25 de Abril

Amanhã comemora-se mais um aniversário do 25 de Abril que se aproxima dos seus quarenta anos. Este aniversário fica marcado pela ausência nas comemorações oficiais do Associação 25 de Abril e do ex-Presidente da República, Mário Soares, que por solidariedade com a Associação não estará presente.
Estas ausências assentam no facto das políticas do actual Governo não se coadunarem com os valores de Abril, sendo mesmo contrárias a esses valores. Muitos criticam as ausências, eu prefiro respeitar a vontade de quem escolhe não comparecer, mesmo que se tratem de pessoas que foram determinantes para o derrube do anterior regime.
Seja como for, este 25 de Abril é particularmente difícil precisamente na medida em que se vivem tempos contrários às suas promessas. Há quem fale na necessidade de um novo 25 de Abril. O que é certo é que o país necessita de uma profunda mudança, de políticas, de intervenientes. Uma mudança que ponha fim à espécie de casta que nos tem governado - directa ou indirectamente - ao longo destes trinta e muitos anos de democracia e a outros que dominam o país há mais de um século. Essa mudança só ocorrerá quando os cidadãos tiverem consciência dessa necessidade de mudança e ajam em conformidade. Pelo que se vê, apesar de todos os atropelos, essa consciencialização e essa acção tardam.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Eleições em França

François Hollande, candidato socialista, venceu a primeira volta das eleições presidenciais francesas e, segundo algumas sondagens, Hollande está bem posicionado para vencer a segunda volta marcada para dia 6 de Maio.
Questiona-se agora que mudanças poderão ocorrer na Europa depois da derrota de Sarkozy, designadamente que mudanças poderão ter lugar no âmbito do eixo franco-alemão. É inquestionável que estas semanas até ao próximo acto eleitoral poderão dar novas pistas sobre o assunto.
Apesar de Hollande nem sempre ser suficientemente claro nas suas intenções, sempre pareceu resoluto relativamente à questão do directório franco-alemão, mostrando não querer alinhar com Angela Merkel, como Sarkozy.
A concretizar-se a vitória de Hollande, o seu eventual afastamento de Merkel é indubitavelmente uma boa notícia para a Europa. Infelizmente, mesmo que Hollande, vença as eleições são mais as dúvidas do que as certezas. Seja como for, a vitória de Hollande constitui uma boa notícia, apesar dessas dúvidas, para aqueles que almejar uma inversão de políticas na Europa.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Subsídios de férias e de Natal

Agora é a vez da ministra da Justiça referir o assunto dos subsídios de férias e de Natal, insistindo na impossibilidade de garantir o regresso destes subsídios em 2014 ou em 2015.
A título de desabafo só me apetece dizer que esta gente cansa. Cansa a história dos subsídios, cansa os diversos responsáveis governativos fazerem previsões dissonantes do tal regresso dos subsídios e em que parcelas. É extenuante assistir a estas declarações de quem se dedica a cortar, liquidar, suprimir elementos essenciais para a vida dos cidadãos - sejam os subsídios (essenciais para muitos cidadãos conseguirem pagar despesas), seja o retrocesso no Estado Social, sejam os constantes atentados aos direitos dos trabalhadores.
A questão dos subsídios é mais um episódio abjecto, oriundo de quem abjectamente prometeu não tocar nesses subsídios e fê-lo com a maior desfaçatez.
Enquanto brincam às datas e às parcelas, enquanto brincam connosco, nós, cidadãos, assistimos impávidos e serenos, como meros espectadores. É precisamente por essa razão ou por essa condição de espectador (recuso-me a deixar cair o "c" imposto pelo novo Acordo Ortográfico) que atingimos o limite. Aliás, enquanto continuarmos nessa posição de meros espectadores, tudo vai piorar. Essa é uma certeza.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

As lições do Gaspar

Por ocasião de um encontro do FMI e do Banco Mundial, o ministro das Finanças Português, Vítor Gaspar, deu Portugal como exemplo do que não se deve fazer. Seguramente outros, num futuro talvez não tão longínquo, façam o mesmo pegando nas palavras de Vítor Gaspar para mostrar maus exemplos.
O ministro das Finanças fala nos erros das políticas expansionistas, em particular dos anos Sócrates. Resta saber o que o impede de corrigir alguns desses erros, designadamente no que diz respeito às parcerias público-privadas. Ou o expansionismo é só para alguns casos? Não lhe ficaria mal reduzir o expansionismo de tachos e panelas que o circundam, só para dar mais um exemplo.
As lições de Gaspar, assentes na cegueira neoliberal que é tão do agrado do FMI e Banco Mundial (Gaspar fala entre amigos e para amigos), ignoram o abrandamento do crescimento das ultimas décadas, fruto do abandono do sistema de Bretton-Woods; ignora deliberadamente que o fosso entre ricos e pobres aumenta significativamente sob a égide do sistema que tanto defende. Assim como se esquece de referir que este modelo de capitalismo assente no sector financeiro, o mesmo que estigmatiza o expansionismo apenas tem beneficiado uma escassa minoria. Lembre-se que quando a maioria começar a sentir na pele as agruras do sistema, os fantasmas do passado regressarão. O crédito e o subsequente consumismo desenfreado já não escondem os baixos níveis salariais, o Estado Social, suporte das sociedades, vai paulatinamente desaparecendo.
As lições do Gaspar esbarram em equívocos e na própria história económica. Este vai ser dos últimos a acordar. Está demasiado tempo agarrado ao pensamento único.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A ameaça da UGT

Depois de lá se ter entendido com o Governo e com o patronato, a UGT, na pessoa de João Proença, vem agora ameaçar rasgar o acordo de concertação social. João Proença alega que o Governo não está a cumprir a parte do acordo que diz respeito a medidas de criação de emprego.
Não se sabe se esta decisão do líder da UGT está de alguma forma relacionada com elevados níveis de ingenuidade ou arrependimento. Não se sabe se João Proença conseguiu ver algum aspecto positivo no acordo de concertação social que alcançou com o Governo mais neoliberal de que há memória em Portugal.
O que é certo que é todos perceberam que este era um mau acordo para quem trabalha e desse ponto de vista uma organização sindical não deveria apoiar um acordo tão nefasto para os trabalhadores.
A imagem do líder da UGT saiu manifestamente beliscada em consequência dessa assinatura. Talvez João Proença procure agora emendar a mão. Seja como for, paira no ar uma indisfarçável sensação de rídiculo em que caiu o líder da UGT.