quarta-feira, 4 de abril de 2012

A porta de saída

As divergências dão amiúde nisto, na direcção da porta de saída. No caso concreto do Vice-presidente da bancada do PS, Pedro Nuno Santos, a saída terá sido voluntária, na medida em que o parlamentar apresentou a sua demissão. Sabe-se que a saída de Pedro Nuno Santos prende-se com as divergências com a direcção do partido, as chamadas "divergências políticas".
Ora, seria saudável no contexto de qualquer partido político que preze a democracia e a indissociável pluralidade de opinião que se apreciassem as posições contrárias àquelas que supostamente são as da maioria.
Infelizmente, não é isso que se passa no seio dos partidos políticos, incluindo, claro, o Partido Socialista. Pedro Nuno Santos já se tinha mostrado incómodo noutras situações - em discordâncias com Carlos Zorrinho, líder parlamentar, e, particularmente, ao mostrar-se contra a ditadura da Troika.
Honra lhe seja feita: Pedro Nuno Santos defendeu com veemência as suas posições, mesmo contra a maioria, não sucumbindo a outros interesses que frequentemente obliteram a opinião livre. Essa veemência terá resultado na sua demissão. A porta da saída está sempre entreaberta para quem assume posições diferentes dos demais. Quem perde é a democracia que é enriquecida com a pluralidade de opiniões e quem perde somos naturalmente todos nós.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Retrocesso social

Depois do Governo anunciar a redução de várias prestações sociais, é agora a vez de Bruxelas admitir o fim dos subsídios de Natal e de férias. Dito por outras palavras, Bruxelas admite que a suspensão da atribuição desses subsídios passe a ter carácter permanente.
É notória a forte convergência entre o Governo português e Bruxelas. No cômputo geral, tanto o Governo português, como os principais responsáveis políticos estão de acordo em enfraquecer o Estado Social e pôr em causa os direitos que com tantas dificuldades foram conquistados, em nome de um modelo económico que não belisca quem muito tem para obliterar os direitos de quem já tem tão pouco.
A cegueira colectiva, que nos afecta muito em particular, invalida qualquer pensamento que se afaste da ortodoxia dominante e qualquer forma de acção que permita, pelo menos, algum reequilíbrio social.
É esta cegueira colectiva associada a mínimos de bem estar social, de que alguns ainda se podem orgulhar de ter, que contribui para o maior retrocesso social das últimas décadas e que seguramente contribuirá para um futuro cada vez mais sombrio.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

15 %

15 % de desemprego no mês de Fevereiro. Os números são dramáticos. Não há forma de amenizar esse facto. 15 % de desemprego, números oficiais, que excluem todos aqueles que se encontram numa situação de desemprego, mas por diversas razões, não estão inscritos no centro de emprego.
O Governo, na pessoa de Miguel Relvas, já afirmou ter dificuldades em dormir sabendo desta realidade. De um modo geral o Governo tenta passar a ideia de que estas dificuldades serão ultrapassadas quando equilibrarmos as contas públicas. Não é chamada à colação o facto do desemprego galopante andar de mãos dadas com o neoliberalismo que, por sua vez, faz as delícias do Governo de Passos Coelho.
Entretanto, o Governo e seu séquito vão tentar nos entreter com notícias de esperança reduzida, mas ainda assim de uma pretensa esperança. Notícias que dão conta de melhorias para o ano que vem, notícias que deixam vislumbrar que todos estes sacrifícios são justificados.
É evidente que nesta equação não há lugar para qualquer crítica a um sistema voraz assente na selvajaria, até porque o Governo de Portugal faz parte daqueles que não escondem o quanto adoram chafurdar nessa selvajaria. Outros ainda tentam esconder esse facto.
Os 15 % de desemprego - noutros países como Espanha e Grécia estes números conseguem incrivelmente ser ainda maiores - são o resultado de um sistema que continua a causar devastação na maioria, em benefício de tão poucos. O desemprego é o resultado de crises cada vez mais prolongadas e de um modelo económico que não vê no emprego qualquer vantagem, bem pelo contrário.
Dir-se-á que estamos a passar pelo pior. Seja como for, o facto é que o melhor não mais regressará enquanto este sistema for defendido por tantos que tão pouco beneficiam dele.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Confiança

É palavra chave da governação em Portugal nas últimas décadas, não nos referimos à confiança entre eleitores e representantes políticos - não se trata dessa confiança propriamente dita. A confiança de que falamos prende-se com as relações entre eleitos e membros do partido que foi escolhido pelos eleitores.
Com efeito, se neste blogue nos dedicássemos a fazer referência aos cargos de nomeação política e de confiança política, não fazíamos outra coisa.
Tanto PS como PSD têm-se mostrado exímios na tarefa de escolher as direcções de organismos públicos - escolhem invariavelmente membros do seu partido. A título de mero exemplo, dois históricos do PSD foram escolhidos para dirigir o hospital de Guimarães. Quem conteste a escolha, leva o argumento da tal confiança política que tem servido para todo o tipo de expedientes, tanto em organismos públicos, como em empresas do Estado, até às chefias dos gabinetes dos ilustres membros do Governo.
A confiança está confinada ao interior dos partidos do chamado arco de governação. Quanto à confiança entre eleitores e eleitos, essa anda pela rua da amargura, mas como nós gostamos de exercícios próximos do masoquismo, continuamos a depositar a nossa confiança em que já demonstrou não ser digno da mesma. Pelo menos alguns de nós ainda o fazem.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Mais cortes nas despesas

A entrevista de Passos Coelho à TVI revela a cegueira do costume. O primeiro-ministro insiste, sem qualquer margem para dúvidas (admirável!), que este caminho da austeridade e da pobreza são os certos. Insiste que o país tudo fará para cumprir as suas obrigações com as entidades credoras.
A deferência com que o primeiro-ministro fala das entidades credoras revela aquilo que todos sabemos: sob o manto da resolução dos problemas da dívida, o Governo de Passos Coelho engendra formas vender o país aos pedaços, beneficiando pelo caminho alguns amigos como é o caso do inefável Eduardo Catroga ou do Paulo Teixeira Pinto. Podemos estar certos que os objectivos do primeiro-ministro são consonantes com aqueles da Troika e esses objectivos estão longe de serem os mesmos dos cidadãos.
Quanto aos cortes nas despesas admitidos por Passos Coelho, sabemos de antemão que esses vão recair inevitavelmente em áreas como a Saúde e Educação, até porque o Estado Social é muito dispendioso, como nos dizem. É preciso mudar de vida, será esta a mensagem de Passos Coelho. Resta saber em que aspectos é temos de mudar de vida. Eu arrisco um aspecto: deixar de votar nos partidos do costume - esse seria um bom começo para mudarmos de vida.

quarta-feira, 28 de março de 2012

O alarmismo

O relatório do SIS que alertava para a possibilidade de existirem confrontos, violência, ruas ocupadas, atentados a bancos e afins no dia da Greve Geral é elucidativo. De facto, pinta-se o cenário com as cores mais escuras possíveis, agora a polícia encontra uma justificação numa espécie de nervosismo colectivo. O relatório foi alarmista? Foi, mas ninguém se parece preocupar com isso, tratou-se apenas de um engano.
O que é certo é que o dia da Greve ficou marcado pelas piores razões. A comunicação social e os responsáveis políticos por arrasto - incluindo o Presidente da República mostram acentuada preocupação com os fotojornalistas agredidos (a palavra é exacta), deixando de fora dessa mesma preocupação todos os que foram injustamente alvo da fúria da polícia.
Habituem-se ao alarmismo, pois este vai continuar a fazer o seu caminho na medida em que é favorável aos poderes instituídos.

terça-feira, 27 de março de 2012

Viragem da crise

O Presidente do BCE, Mario Draghi, não vai tão longe ao ponto de falar num ponto de viragem da crise, embora reconheça sinais de estabilização nos últimos meses. O optimismo moderado contrasta com a degradação das condições de vida visível nos países mais afectados por aquilo que começou por ser uma crise do sector financeiro e subitamente passou a ser uma crise das dívidas soberanas.
Se por um lado nada se aprendeu e pouco ou nada mudou com a crise do sector financeiro, ao ponto de ter caído no esquecimento colectivo, pouco ou nada se está a aprender com as suas consequências, designadamente com aquilo que se tem designado como crise das dívidas soberanas.
O funcionamento do BCE permanece o mesmo, a ideologia neoliberal que subjaz às políticas seguidas no seio da UE agudiza-se e o próprio funcionamento da moeda única continua assente em premissas erradas que beneficiam uns, em detrimento de outros, colocando em risco o próprio projecto europeu.
O Presidente do BCE tenta moderar o seu optimismo, mas ele está lá e justifica-se. De facto, o sector financeiro tem sido resguardado da crise e quem tem pago a factura de um capitalismo financeiro selvagem têm sido os cidadãos que vêm o seu futuro comprometido, os que ainda vislumbram um futuro.
Não há razões para qualquer optimismo enquanto se continuar a insistir na mesma receita que nos levou à ruína, sendo certo que esta receita continua a servir os interesses de alguns, como o Sr. Draghi tão bem sabe.