terça-feira, 20 de março de 2012

Dívidas dos municípios

Importa desde logo lembrar que o trabalho dos municípios tem sido, de um modo geral, determinante para o bem-estar das populações. Esse é um facto que não pode ser esquecido.
Todavia, também sabemos que alguns municípios se renderam às construtoras, aumentando a sua dívida que dificilmente pode ser justificada com esse tal bem-estar das populações de que se fala neste texto. A má gestão tem passado essencialmente por ligações nem sempre transparentes e raras vezes benéficas para as populações. Essas ligações foram feitas, mais no passado é certo, com empresas de construção. Em consequência, as dívidas das autarquias não são questão de somenos e todos conhecemos casos de obras cuja utilidade é, no mínimo, duvidosa.
O país vê-se assim atulhado em mais dívidas, muitas delas associadas a empresas municipais e, repito, com ligações frequentes ao sector da construção.
Importa por isso encontrar soluções, evitando cair novamente nos mesmos erros.
Todavia, é imperativo que não se esqueça a importância que a municipalidade tem para o bem-estar das populações, mas para tal importa que os responsáveis autárquicos percebam as necessidades das populações que amiúde não passam por mais uma rotunda, por exemplo, ou pior, por um estádio de futebol.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O reconhecimento

Jean-Claude Junker, Presidente do Eurogrupo, reconhece erros estratégicos no plano de resgate da Grécia. Porém esse reconhecimento é tímido e pouco completo. Falta dar-se importância ao crescimento económico - aparentemente Jean Claude-Junker terá descoberto a pólvora. Não admite a falha de todo o programa, mas chama a atenção para o menosprezo que se deu ao crescimento económico.
Por conseguinte, o reconhecimento é tímido.
A doutrina da UE continua a ser plasmada do pensamento económico seguido inexoravelmente pela Alemanha. Todos falam da importância do crescimento económico, mas nenhum explica como é que o mesmo se coaduna com a austeridade imposta aos Estados. Diz-se que primeiro consolida-se as contas públicas, depois chegará o crescimento económico.
Junker reconhece falhas, mas insiste na premissa que o caminho continua a ser este que tem vindo a ser seguido, apenas dando-se maior ênfase ao crescimento económico. O que não diz é que o objectivo está a ser alcançado: mesmo com perdões da Banca, esta continua a ser visivelmente beneficiada com as políticas seguidas. Aliás, o objectivo é mesmo esse a par da abertura de vários sectores da economia dos países em dificuldades.
Em suma, o reconhecimento é tímido, tardio e está longe de contar toda a história.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O estigma do voto

É recorrente, e este blogue não será propriamente uma excepção, criticar-se a escolha dos eleitores, designadamente quando a mesma não se coaduna com as nossas próprias escolhas e quando o Governo entretanto eleito já se encontra em funções. No caso deste blogue fazem-se inúmeras referências à bipolarização das escolhas no período da democracia.
Todavia, não é meu objectivo dar lições de moral ou estigmatizar quem exerce democraticamente o seu direito e dever de votar, mesmo votando em quem eu não concordo. Antes prefiro abordar as consequências da tal bipolarização do que estigmatizar quem votou neste ou naquele partido.
Infelizmente, há quem não resista em fazer essa estigmatização, criticando incessantemente quem votou neste ou naquele partido. Ora, nenhum de nós é dono da verdade e embora a experiência nos ensine que os dois partidos do arco do poder não têm tido a melhor conduta ou produzido os melhores resultados, essa tem sido a escolha da maioria e como tal deve ser respeitada.
Podemos no entanto chamar a atenção para a relutância dos cidadãos em fazer novas escolhas e forçar outros caminhos. Assim como é importante sublinhar-se a acção da comunicação social e a sua importância nessas escolhas, nem que seja pela pouca ou nenhuma importância dada a partidos ou movimentos fora do tal arco do poder.
De qualquer modo, não me parece particularmente democrático insistir na condenação daqueles que ainda insistem em votar em quem tem contribuído de forma tão evidente para a nossa ruína. Será preferível argumentar em sentido contrário a determinadas visões e convicções sem no entanto estigmatizar quem pelo menos exerce democraticamente um seu direito. É mais profícuo contribuir para a mudança do que insistir em denegrir quem permanece imutável. Até porque erros, todos os cometemos e não vale a pena martirizar a pessoa, é preferível mostrar-lhe como a mudança é possível e desejável.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A desfaçatez do regime

Como se as atrocidades cometidas contra o povo sírio e outros apanhados na violência que tomou conta de algumas cidades sírias não fossem suficientes, o Presidente Bashar Al-Assad ainda se deu ao luxo de brincar com assuntos sérios. Recomenda-se o visionamento dos e-mails trocados entre o Presidente Sírio e a sua mulher que o jornal The Guardian obteve. Os e-mails são ainda do ano passado, mas são sintomáticos de um regime comandado por um homem que despreza o seu povo.
Nesses e-mails o Bashar Al-Assad ridiculariza as propostas de reformas a que se propôs, pede aconselhamento ao regime iraniano de modo a combater as manifestações que começavam a eclodir em algumas cidades sírias, e conversa com a mulher sobre os gastos sumptuosos desta, designadamente através da compra de artigos de luxo.
A desfaçatez do regime não tem fim, Infelizmente os problemas da Síria vão muito para além dessa desfaçatez, a violência continua a fazer as suas vítimas e o regime não dá sinais de abrandamento da repressão a que tem sujeito o seu povo.
O destino de Bashar Al-Assad não deve ser particularmente diferente de outros ditadores que insistem na repressão como forma de manter o regime. Todos ainda temos em memória o destino do líder Líbio.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Os Portugueses sabem

Durão Barroso, ex-primeiro ministro de Portugal que encontrou melhorias na sua vida na Comissão Europeia voltou a insistir que os Portugueses sabem que não há alternativa à consolidação orçamental à moda da UE de Merkel, que é o mesmo do que dizer que não há alternativa à austeridade.
Acrescentou ainda alguns elogios aos Portugueses caracterizando-os como sendo pessoas inteligentes e de bom senso.
Ficamos à espera da prova em como não há alternativa à austeridade e que o caminho único e possível é o que Merkel determinou. Todos aqueles que mostram outros caminhos alternativos ao pensamento único são relativizados.
Eu acrescento que os Portugueses também sabem e sentem que o país, continuando com estas políticas neoliberais, só vai conhecer pobreza e miséria nos próximos anos. E mais do que saber, os Portugueses sentem o país a esmorecer a cada dia que passa, enquanto o Governo - fervoroso adepto das políticas impostas pela Alemanha - afasta aqueles que preferem defender os interesses dos cidadãos do que aqueles dos grandes poderes económicos.
Infelizmente os Portugueses não sabem ou não querem reconhecer (pelo menos uma boa parte deles) é que a solução para o país já não passa pela alternância de voto entre os dois partidos do costume. Esperemos que pelo menos os Gregos se tenham apercebido disso mesmo e ajam em conformidade nas próximas eleições.

terça-feira, 13 de março de 2012

Um ano II

Um comentário de Fernando Lopes publicado no post anterior (que desde já agradeço) chamou-me a atenção para o seguinte: o movimento 12M foi aproveitado pela direita para derrubar o Governo de José Sócrates. De facto, recordo-me de estar presente na manifestação e quando as vozes clamavam pela saída de José Sócrates, um amigo ter referido que muitos ainda se arrependeriam daqueles dizeres sobre o ainda primeiro-ministro. Eu próprio há muito que digo que os cidadãos acabariam por trocar um mau governo por um governo muito mau, o que de facto se concretizou.
Os protestos como o de há pouco mais de um ano contribuíram para a queda do Governo de então, mas que creio que a contribuição não foi assim tão significativa quanto isso. Mas admito que tenha de facto de contribuído.
É evidente que num país politicamente dividido entre PS e PSD, quando um cai, ressurge o outro, mesmo que esse outro não esconda as suas intenções de ir mais longe do que a troika, por exemplo, nem tão pouco escamoteie a sua vertigem neoliberal.
Quanto ao enfraquecimento destes movimentos, volto a dizer que tenho dúvidas, embora reconheça que já não possuem a mesma força de há um ano, mas para além de continuarem activos, para além de terem aberto uma porta fora da política convencional, voltarão a ressurgir em força. Creio que no próximo dia 12 de Maio isso mesmo se vai confirmar.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Um ano

Faz hoje um ano que as ruas de várias cidades do país se encheram com milhares de cidadãos num protesto organizado pela então denominada Geração à Rasca. O Público tem um artigo interessante sobre o tema, o jornal pergunta para onde foi a indignação e arrisca respostas que se centram no medo, na passividade dos Portugueses.
Não nos podemos esquecer que no dia 15 de Outubro de 2011 também se conseguiu compor a cidade de Lisboa e outras com milhares de pessoas, num protesto que contou com a participação da Geração à Rasca, entre outros movimentos. Nem tão-pouco nos podemos esquecer que este movimento e outros similares contribuíram para uma mudança que me parece ainda ser indelével: a participação de movimentos, a importância desses movimentos para a exteriorização do descontentamento.
Hoje fala-se do enfraquecimento destes movimentos. Não concordo. Os movimentos continuam a existir e a participação com o objectivo de mudar as políticas não perdeu toda a sua força. De resto, os resultados não são imediatos e parece-me que existe um sentimento mais ou menos generalizado de impotência que inviabiliza qualquer tomada de atitude.
A comunicação social tem feito bem o seu papel: ao dizer, seja através dos comentadores de pacotilha, seja através da escolha de notícias, que não há outro caminho ou que qualquer outro caminho resultaria numa espécie de Apocalipse.
Assim, assiste-se ao aprofundamento da inércia, seja resultado do medo de que tudo possa piorar, seja por nos impingirem incessantemente a velha ideia da inevitabilidade consequência de más escolhas por nós feitas.
É contra isto que os movimentos que deram origem ao protesto do dia 12 de Março do ano passado têm de lutar. É uma luta hercúlea que leva o seu tempo e que nem sempre produzirá os resultados almejados. Mas nem por isso deixa de ser uma luta necessária; uma luta que se revela cada vez mais necessária a cada dia que passa.