terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A pieguice

Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal, apelou aos Portugueses para serem menos piegas e para serem mais trabalhadores e mais exigentes. O discurso não é propriamente novo, mas o apelo ao fim da pieguice traz alguma novidade. Passos Coelho acredita que é desta forma que podemos restaurar a credibilidade do país, sem a qual a economia portuguesa não recuperará.
Ora, não deixa de ser interessante ouvir o chefe de Governo apelar ao fim da pieguice. E mais interessante seria perceber de que pieguice é que ele se está a referir. A pieguice dos desempregados, dos cidadãos que passam por dificuldades até para comer, a pieguice de quem vive todos os dias o tormento de perder o emprego e a forma de subsistência? Será essa a pieguice a que Passos Coelho se refere?
Estará o primeiro-ministro a confundir pieguice com a natural manifestação de descontentamento de quem vê o seu país empobrecer a cada dia que passa, mesmo sabendo que o empobrecimento é um objectivo do primeiro-ministro?
Pedro Passos Coelho, com maiores ou menores manifestações de pieguice, mantém-se irredutível no caminho que traçou para o país e que se resume a duas ideias. A primeira passa pelo empobrecimento, com o enfraquecimento e paulatino desaparecimento do Estado Social e com a tibieza das relações de trabalho e a segunda ideia que se consubstancia em objectivo é a venda de sectores estratégicos do país. Mesmo que não fosse essa a vontade divina da troika, este Governo continuaria empenhado em vender esses mesmos sectores - não se tenha qualquer dúvida.
Se o Governo conseguir atingir estes objectivos, terá cumprido a sua missão.
Peço desculpa pela pieguice deste meu pequeno texto.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Negociações em Atenas

Hoje, em princípio, ficar-se-á a saber se a Grécia aceita novas medidas de austeridade em troca de mais dinheiro. A escolha está entregue aos três partidos com maior representação e não se afigura fácil. As centrais sindicais já prometeram uma greve geral e não se consegue perceber como é que este país fustigado pelos mais abjectos egoísmos aguentará mais austeridade.
O FMI e a UE estão convencidos que sim, ou melhor, estão-se nas tintas para o grau de resistência dos gregos. A Grécia está falida de uma maneira ou de outra e o objectivo é garantir o mínimo de perdas para os credores e maximizar a venda do país, peça a peça.
Pelo caminho, os cidadãos Gregos - incessantemente responsabilizados pelo mal que lhes assola - vivem o maior paroxismo das últimas décadas. Acresce ao sofrimento do povo, os olhares a afirmações de reprovação dos restantes Estados-membros, a constante culpabilização e o distanciamento.
Ainda não se sabe qual o desfecho das negociações em Atenas, embora se suspeite que vêm aí nova torrente de medidas de austeridade vão recair sobre os Gregos. Resta saber qual o ponto de ruptura de um povo constantemente humilhado e espoliado. Creio que esse ponto de ruptura está para breve, ou talvez até já tenha sido atingido.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A pobreza

"Pobres já estamos". A constatação é do primeiro-ministro de Portugal, numa entrevista dada ao semanário Sol. A afirmação não causa espanto, afinal de contas, Pedro Passos Coelho já tinha referido a necessidade do país empobrecer. Agora fala daqueles que viveram acima das suas possibilidades, recorrendo para tal ao crédito.
É curioso verificar que no tempo do crédito fácil e acessível, cidadãos e empresas eram impelidos a contrair esses créditos. Veja-se o crédito à habitação e a promoção do mesmo. Agora, procura-se culpabilizar quem cedeu a essas pressões - porque é mesmo disso que se trata - e sublinhar reiteradamente que muitos vivem ou viveram acima das suas possibilidades. Quando a banca arrecadou fortunas, estava tudo bem. Poucos foram aqueles que alertaram para o problema.
Em relação ao Estado, também se diz que este vive acima das suas possibilidades. Seguramente que vive. Vive acima das suas possibilidades porque fez contratos ruinosos, porque banalizou as parcerias público-privadas, porque pediu pareceres milionários, porque deixou que a construção desenfreada fosse o seu motor de crescimento, porque permitiu que a corrupção grassasse no seu seio.
Agora, o empobrecimento é o caminho. Empobrecimento do Estado que resulta na fragilização do Estado Social; empobrecimento dos cidadãos, atolados em créditos (em particular crédito à habitação) que outrora eram promovidos até à náusea, os mesmos que têm de fazer face ao maior retrocesso social das últimas décadas.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Os prejuízos da greve

O Governo antes da greve dos transportes, o Governo fez questão de sublinhar os custos dessa greve. 150 milhões de euros é o valor apontado pelo Governo. Mesmo assumindo que esse valor é correcto, não é possível evitar a sensação de que o Executivo de Passos Coelho pretende dividir para reinar.
Deste modo, aponta os prejuízos calculados de uma greve precisamente antes da mesma ter lugar, deixando subentendido a ideia de irresponsabilidade por parte de quem faz uso de um direito garantido pela Constituição da República Portuguesa.
Dividir para reinar. Com efeito, não podemos acusar apenas este Governo de recorrer a métodos que culminam em divisões. O Governo anterior era igualmente exímio na matéria.
É mais fácil reinar quando os cidadãos se dedicam à crítica mútua ao invés de exercer um olhar mais crítico sobre quem os Governa.
Os prejuízos da greve, noutros tempos e ainda hoje as diferenças entre funcionários públicos e trabalhadores do privado, com ênfase nas regalias dos primeiros, são apenas alguns exemplos de como é fácil deixar os cidadãos entretidos com estas divisões enquanto se destrói o Estado Social e os direitos de quem trabalha.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Onde é que pára o crescimento?

Na última cimeira que reuniu os 27 Estados-membros da União Europeia discutiu-se a importância do crescimento económico. O que não foi dito é que esse crescimento económico é inviabilizado por doses cavalares de austeridade.
No caso grego, a ideia de crescimento económico nem sequer é abordada. Como o FMI fez questão de lembrar, importa que a Grécia aprofunde ainda mais a aplicação de medidas de austeridade, isto caso pretenda receber nova ajuda externa. Ou seja, são necessárias mais medidas de austeridade.
Assim, fala-se na necessidade de reduzir o salário mínimo grego e cortar-se nas férias do sector privado. Sim, o salário mínimo.
Consequentemente, se perguntarmos onde é que pára o crescimento, muito em particular no caso grego, não encontramos respostas. A austeridade é o caminho, o crescimento económico e a promoção de emprego virão depois, com um bocadinho de fé.
A realidade demonstra que o crescimento económico não chegará. O que os gregos têm para mostrar é um retrocesso social sem precedentes. Eles empobreceram, nós estamos a empobrecer e o nosso Governo estabelece como meta esse mesmo empobrecimento.
Os países que compõem a Zona Euro voltam a mostrar preocupação com Portugal. O nosso primeiro-ministro diz que vai cumprir os objectivos estabelecidos pela troika, custe o que custar. A taxa de desemprego subiu em Portugal como nunca se viu. O primeiro-ministro reafirma que nós não somos a Grécia. Nada disto será esquecido. Esquecido só mesmo o crescimento económico e a promoção de emprego.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Crescimento económico e emprego

A cimeira que reuniu os líderes europeus em Bruxelas não trouxe novidades de relevo. Chega-se paulatinamente à conclusão que é preciso ir além da austeridade, designadamente de modo a promover o crescimento económico, mas não se vislumbra como atingir esse objectivo.
Percebe-se que a ortodoxia económica continua a vigorar, com forte apoio alemão e que os países em dificuldades apenas verão essas mesmas dificuldades recrudescer.
O pacto orçamental conta com 25 dos 27 Estados-membros. A rigidez orçamental continua a ser a bitola de uma Europa à deriva conduzida por lideranças anódinas e egocêntricas.
Quanto à possibilidade de ocupação da Grécia, a chanceler Alemã tentou desvalorizar dando-lhe uma roupagem de auxílio e não de ocupação.
A cimeira do crescimento económico e da promoção de emprego foi mais um triste episódio da História da Europa. Nenhuma das medidas que poderiam inverter a crise são sequer contempladas. Insiste-se nas mesmas receitas que nos trouxeram ao descalabro que conhecemos.
Entretanto, o retrocesso social e o empobrecimento vão fazendo o seu caminho. Portugal e outros países que o digam.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Ocupação

Ocupação, humilhação, excessos e egoísmos são palavras que encaixam na perfeição na proposta alemã que postula que o orçamento grego deve ser gerido por um funcionário da Comissão Europeia. Isto, claro está, se a Grécia não cumprir as metas estabelecidas pela Troika, muito em particular, pela Alemanha.
As reacções foram, em larga maioria, de incredulidade, a começar na reacção do próprio ministro das Finanças grego que relembrou lições do passado. De facto, o passado é assunto de somenos para uma liderança alemã com fraca e de fraca memória. Nem se recordam das dívidas perdoadas oriundas da Segunda Guerra mundial, nem tão-pouco se recordam das lições a retirar de uma Europa dividida entre quem subjuga e quem é subjugado.
A ocupação proposta pela Alemanha é uma afronta não só para a Grécia como para toda a Europa. O projecto europeu já não deambula pelas ruas da amargura, mas está antes liquidado. Essa liquidação tem responsáveis; o fim do projecto europeu tem responsáveis.
O perigo já não parece ser apenas da bancarrota da Grécia, mas no horizonte vislumbram-se perigos ainda mais acentuados, entre os quais esta proposta de ocupação.
Todavia, se analisarmos com atenção a história da Europa nos últimos meses, percebemos que o enfraquecimento das democracias na Grécia e em Itália, com a demissão dos governos e imposição de outros governos escolhidos pela Alemanha, é apenas um dos mais visíveis sinais do fim do projecto europeu. Esta proposta da Alemanha vem apenas no seguimento de um projecto de domínio que está a substituir o projecto europeu.