segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Renegociar com a Troika

Pedro Passos Coelho, ausente do país, opta por proferir afirmações e fazer revelações surpreendentes, ou talvez não. O primeiro-ministro escolhe um país estrangeiro para revelar aos portugueses que necessita de renegociar com a Troika, tendo em conta a dívida das empresas públicas.
Os pormenores dessa renegociação - sempre recusada por Passos Coelho, mesmo quando membros do seu próprio partido o sugeriram - ficam para outra oportunidade, como de resto já é habitual.
Enquanto Passos Coelho fala da necessidade de renegociar com a Troika, o mesmo Passos Coelho não reage à notícia de que a Alemanha, mais concretamente, o ministro alemão das Finanças, propõe uma taxa Tobin, mas apenas para a Europa. Recorde-se que há largos anos que muitos advogaram essa taxa que recai sobre as transacções financeiras. Aqui neste blogue já se abordou o assunto. Sobre esta matéria, nem uma palavra dos membros do Governo português. As razões para esse silêncio prendem-se com a cegueira ideológica que assola o mesmo Governo que agora lidera os destinos do país. Seguramente haverá quem se terá incomodado com a proposta do insuspeito ministro das Finanças alemão. Por outro lado, a renegociação com a Troika pautar-se-á pela mesma cegueira ideológica que caracteriza Passos Coelho e o seu séquito.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

12 vencimentos

Pedro Passos Coelho em viagem de negócios ao Brasil (as privatizações estão na ordem do dia) referiu não excluir a passagem a 12 vencimentos, embora afirme que os cortes nos subsídios de natal e de férias sejam de cariz temporário. Simultaneamente não exclui a possibilidade desses cortes passarem a vir a ter um carácter permanente. O ministro dos Assuntos Parlamentares acrescentou que em muitos países europeus só existem 12 vencimentos. Como de resto é habitual nestas afirmações a diferença salarial entre esses mesmos países europeus e Portugal é, para os nossos ilustres governantes, uma questão de somenos.
A destruição acelerada de direitos outrora conquistados com tantos sacrifícios por parte daqueles que fizeram essa luta é um facto indesmentível. O Governo português que segue os mesmos passos da Grécia, embora o refute com toda a veemência, está igualmente decidido em desvalorizar o trabalho em consonância com a ideologia seguida.
Passos Coelho parece satisfeito. O resultados da última cimeira europeia vem, segundo o próprio, tirar a pressão de Portugal - resta saber até quando - e Passos Coelho encontra-se empenhado em cumprir mais uma parte do acordo com a Troika e um elemento chave da sua ideologia: as privatizações.
O caminho encontrado por Portugal e seguido ineptamente por quem nos governa tem sido rebatido quer pela experiência de outros países onde a austeridade falhou e arruinou economias, quer por reputados economistas que não se cansam de referir que este caminho é contraproducente.
Sejamos realistas: o Governo português está-se verdadeiramente nas tintas para as experiências falhadas de outros países. Com ou sem Troika, mas com Troika é melhor porque lhe permite agir com maior margem de manobra, o Governo está empenhado em aplicar políticas de uma ideologia que se mostra falhada a cada dia que passa.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Empobrecimento e prosperidade

O primeiro-ministro, já aqui se referiu, falou da necessidade do país empobrecer. Ontem o ministro das Finanças referiu que Portugal, depois de tantas agruras, retomará o caminho da prosperidade. No mesmo dia sabe-se que o custo acumulado do BPN no défice é superior ao que vai ser retirado em subsídios. Uma situação vergonhosa, para não dizer mais.
Quanto ao empobrecimento ambicionado pelo primeiro-ministro não há muito a dizer e que há já aqui se disse. Relativamente às promessas de prosperidade feitas pelo difícil de caracterizar ministro das Finanças, há muito por dizer. Desde logo, não se percebe as diferenças entre os discursos do primeiro-ministro e o seu ministro das Finanças, afinal de contas falar-se na mesma semana na necessidade de empobrecer e nas promessas de prosperar parece, no mínimo, paradoxal.
Por outro lado, o ministro das Finanças ignora todo o manancial de problemas estruturais que assolam a economia portuguesa. Como se esses problemas não existissem.
Desde modo, do ponto de vista do ministro, depois das contas públicas sanadas, o país retomará (?) a rota da prosperidade. Ignora-se, portanto, os problemas da Justiça, a baixa produtividade (que o Governo julga resolver com mais horas de trabalho, mais flexibilização nos despedimentos, mais precariedade e menos direitos dos trabalhadores), a partidocracia que envolve negócios entre Estado e alguns intervenientes privados, deixando de fora muitas empresas, contribuindo assim para o aumento da despesa do Estado. O ministro ignora igualmente a ineficiência da Administração Pública, factor que contribui inquestionavelmente para a fraca competitividade da economia portuguesa. O ministro, afundado em números, não consegue ver para além disso. Mas afirma ver a prosperidade.
Por outro lado, não se percebe muito bem de que forma é que se vai combater o endividamento do país, quando esse endividamento é, na sua maioria, privado e mesmo em relação ao endividamento público, este traduz-se em empréstimos em cima de empréstimos sem um vislumbre de crescimento económico.
Para concluir, importa analisar quais as causas do falhanço do neoliberalismo, Ora aqui está uma ideologia adoptada pela maior parte dos governos europeus, mesmo por aqueles que se dizem sociais-democratas ou socialistas e que continua a comandar os destinos dos povos, apesar de ter falhado clamorosamente.
Sabemos as falhas do comunismo. O filósofo francês André Comte-Sponville, no seu livro "O capitalismo será moral" faz uma excelente análise dessas falhas, designadamente quando refere o erro de Marx na sua tentativa de moralizar a economia. Adianta ainda que para o comunismo ser exequível seria necessário que os homens pusessem o interesse geral à frente dos interesses particular. Mas Comte-Sponville aponta falhas no neoliberalismo e naquilo que designa por tirania dos mercados. Sublinha a amoralidade do capitalismo, mas aponta os perigos do Estado mínimo, refere a perda de soberania dos povos, na medida em que a soberania pertence aos mercados. São eles que decidem, como hoje é perceptível como nunca antes. Deste modo deixa de haver democracia, passando a existir aquilo que Comte-Sponville designa por tirania dos mercados. É precisamente essa tirania que merece ser analisada em conjunto com a ideologia que lhe subjaz e que configura um falhanço, mesmo não reconhecido.
É impensável pedir-se aos ilustres membros deste governo que façam uma análise similar, desde logo porque estão cegos pela ideologia que seguem, como outros no passado também seguiram cegamente outras ideologias. E depois porque fazer esta análise pressupunha chegar à conclusão do falhanço das suas ideias e, como sabemos, poucos são aqueles que, mesmo depois da cegueira passar, assumem os erros e reconhecem que estavam enganados..

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Empobrecimento

O primeiro-ministro de Portugal sublinhou que o país terá que passar por um processo de empobrecimento, sendo essa, segundo a ideia de Passos Coelho, a única forma de Portugal sair da crise. O primeiro-ministro chega a colocar um desafio àqueles que conheçam outras formas de sair da crise enriquecendo e gastando mais. Daqui se depreende que Portugal das duas uma: ou empobrece ou enriquece, sendo que o enriquecimento é, na óptica de Passos Coelho, uma espécie de milagre.
O empobrecimento de que Passos Coelho fala é conhecido. É o empobrecimento da classe média e das classes mais desfavorecidas. É também um empobrecimento a dois níveis: um directo, nos salários, pensões, poder de compra e no cada vez mais recorrente desemprego e outro no Estado Social, com cortes na Saúde e subsequente encarecimento dos serviços de saúde, cortes na Educação e nos apoios da segurança social.
Assim, o empobrecimento de que Passos Coelho fala não é mais do que o empobrecimento daqueles que, em larga medida, já eram pobres.
O primeiro-ministro, apesar de todas as convulsões que se vivem na Europa e apesar do fracasso das mesmas medidas na Grécia, continua resoluto em empobrecer o país, esperando aí sim o milagre da recuperação. Haverá seguramente quem prefira comparações entre o caso português e o caso irlandês, esquecendo-se no entanto que a economia irlandesa está longe de ter os problemas de natureza estrutural da portuguesa e que o problema irlandês esteve muito relacionado com o sector bancário do país.
Portugal vai empobrecer. Não se trata propriamente de uma novidade, já todos percebemos isso mesmo e já muitos de nós sentem isso diariamente. O primeiro-ministro, refém de uma ideologia falhada, assume que o empobrecimento é, de facto, uma necessidade. É sempre bom saber.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Europa continua sem soluções

Amanhã será o dia de todas as decisões, ou talvez não. Muito provavelmente não. Fala-se do reforço do Fundo Europeu de Estabilização Financeira, da recapitalização da banca e de um possível perdão da dívida grega. Os mercados desanimam.
Quanto ao perdão da dívida grega. Desde logo importa referir que a situação grega chegou ao ponto de se tornar insustentável. Para tal contribuíram as políticas alemãs, primeiro virando as costas ao problema grego, depois impondo fortíssimos planos de austeridade que invalidaram qualquer possibilidade de recuperação. Os mercados fizeram o resto do trabalho, exigindo aos gregos juros obscenos. Há responsáveis para a inviabilidade económico-financeira da Grécia e reconheça-se de uma vez por todas quem são esses responsáveis e que políticas lhe estão subjacentes. O perdão da dívida grega está longe de ser possível, em particular quando as condições desse perdão serão impostas pela Alemanha. Resta saber qual o peso do perdão para o povo grego.
Desta vez nem uma reestruturação da dívida grega será suficiente para aliviar aquele país. O problema já tomou dimensões incomensuráveis e tornou-se descontrolável. Agora é tarde.
Portugal segue os passos da Grécia. A cegueira ideológica do Governo nem podia permitir que fosse de outra maneira. Já se percebeu que dificilmente se conseguirá atingir as metas a que o Governo português se propôs e a receita de austeridade aniquila a economia portuguesa, tornando impossível, à semelhança da Grécia, a recuperação, por ténue que seja. Mais, o perdão à dívida grega com as condições da Alemanha, o fantasma da falência deste país a par da sua provável saída do Euro vai relançar todas as atenções para quem se segue à Grécia. No caso, Portugal. O efeito de contágio - que tem sido incessantemente ignorado - acabará por ter um enorme impacto em Portugal.
O directório franco-alemão insiste nas receitas falhadas. Pretende reforçar o FEEF, sem uma mudança na natureza do BCE, esse reforço do FEEF será sempre insuficiente e mais não é do que uma medida de recurso.
Entretanto, países como Espanha e Itália seguem por caminhos tortuosos sob a mira dos mercados.
As divisões no seio do directório franco-alemão complicam ainda mais a equação. Sarkozy e Merkel têm ideias diferentes para resolver a crise. Merkel agarrada ao neoliberalismo, Sarkozy ameaçado pela proximidade de eleições e resoluto no apoio à banca francesa.
Amanhã será o dia decisivo. Pelo menos terá esse peso. Infelizmente, outros caminhos para salvar o Euro são postos de lado. O Orçamento continuará a ser risível, a uniformização fiscal um devaneio e a mudança de filosofia do BCE (agindo como um verdadeiro banco central) uma utopia. A união política não existe. O que existe são dois países que digladiam argumentos entre si e que agem tarde demais. Desta vez já nem criam expectativas. Os mercados desanimam - termo curioso. Os mesmos mercados que numa senda de especulação pouco vista atacaram e empolaram as crises da dívida soberana, enriqueceram, depois de 2008 e do desastre que isso implicou. Tenha-se em atenção os CDS no caso espanhol, italiano e até francês.
Independentemente das solução dos directório franco-alemão que substitui as instituições europeias e os restantes países, a Grécia dificilmente se salvará, o perdão negociado pela Alemanha poderá ser demasiado oneroso para a Grécia e a Europa tornou-se numa anedota, caminhando a passos largos para o seu fim. Apesar de tudo e paradoxalmente, poucos de nós saberão exactamente de que dívidas é que andamos há tanto tempo a falar. De igual modo, a Grécia ensina-nos uma lição que muito teimam em não querer aprender: austeridade draconiana leva-nos ao abismo e pelo caminho empurra outros para o mesmo destino.

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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Incoerências

É uma acusação reiterada. E também é uma acusação que recai sobre aqueles que não se coíbem de expor a sua opinião e sobre aqueles que têm a coragem de deixar a sua opinião documentada, recorrendo para tal à escrita. Para esses a incoerência é, amiúde, uma inevitabilidade.
Ora, a pretensa falta de coerência não é mais do que uma adaptação a circunstâncias excepcionais. Veja-se, por exemplo, os tempos em que vivemos. Se a preponderância dos mercados já é notória há décadas, nunca antes a situação se agravou ao ponto de pôr em causa tanto o bem-estar dos cidadãos como os próprios sistemas democráticos.
Nestas circunstâncias, não será de esperar uma reacção que não passe pela crítica à globalização assente no capitalismo financeiro. Foi a crise de 2008 que deixou a descoberto a selvajaria que domina o mundo. Foram os anos subsequentes a mostrar como é que essa selvajaria continua a reger as nossas vidas. E foi essa selvajaria a empolar as dívidas soberanas criando as oportunidade ideal para se introduzirem políticas neoliberais cujo objectivo é a destruição do Estado Social e dos direitos dos cidadãos. Portugal é um bom exemplo dessa investida. Ficando o capital de fora da voracidade fiscal.
Estes não são problemas de hoje. Trata-se de uma situação resultante da queda do sistema Bretton-Woods. Todavia, tudo se precipitou desde 2008,o que deu origem a críticas mais cerradas de pessoas como a autora deste blogue que, embora fosse crítica das desigualdades resultantes da globalização selvagem, não reiterava essas críticas suficientemente - reconheço agora.
Quanto à situação do país. Este blogue sempre foi um local de crítica do anterior governo, Na educação, na Justiça, na corrupção e na escolha de um modelo económico que não estava a produzir os efeitos desejados, num misto de liberalismo e de socialismo envergonhado.
A incoerência que possa recair sobre os textos deste blogue não são mais do que o reforço dado a um problema que nos atinge a todos, fruto da globalização financeira. Um problema cujas soluções são assentes nas mesmas receitas que o criaram. É difícil assistirmos à retrocesso social e à destruição das próprias democracias e, simultaneamente, mantermo-nos serenos. A incoerência não é incoerência nenhuma. O que se procura é colocar a ênfase nos problemas. Hoje, mais do que nunca, o problema é um sistema global que potencia injustiças, que cria crises atrás de crises, sistema essa que cria divisões entre os povos e que mina as democracias. Não perceber isto é não perceber o mundo em que se vive.
Paralelamente, Portugal padece dos seus problemas que não me canso de referir: a corrupção e a Justiça, a partidocracia, a existência de uma casta de priveligiados que comanda os destinos do país há largas décadas e que o leva à ruína.
Ora, o que talvez ainda tenha de explicar novamente seja o facto de ambos os problemas supracitados coexistirem. Os problemas do país e os problemas decorrentes da selvajaria dos ditos mercados. E também neste particular, haverá sempre quem não queria perceber essa coexistência. Para muitos os problemas são invariavelmente analisados com recurso a dualidades, ou é preto ou é branco, ou é bom ou é mau. Não tenhamos dúvidas que a vida assim torna-se mais simples.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Alternativas

Os movimentos que integraram o 15 de Outubro têm vindo a sofrer críticas que recaem sobre a inexistência de alternativas. Por outras palavras, estes movimentos são acusados, entre outras coisas, de protestar sem avançar alternativas. Desse modo, e por me rever no manifesto do movimento 15 de Outubro, aqui deixo algumas ideias que poderão ser consideradas alternativas. O que não posso deixar de contestar é a intoxicação que a comunicação social tem feito, convidando invariavelmente os mesmos intervenientes, todos apologistas da mesma escola de pensamento, a tal que nos levou à situação que vivemos hoje.

Reestruturação da dívida relativa às parcerias público-privadas. O custo é incomportável para as próximas décadas e já este ano o foi, como se percebe pelo OE 2012. Os negócios são desastrosos.

Reaproveitamento dos recursos humanos do Estado, prescindido assim o mesmo Estado de pagar somas avultadas por consultadorias, pareceres e afins que oneram todos os contribuintes e enriquecem os mesmos do costume, geralmente amigos do regime. O Estado deve aproveitar melhor os seus recursos humanos. Para quê o Estado recorrer a tantos serviços externos? A resposta também é óbvia e está relacionada com a partidocracia.

Aumento de impostos sobre mais-valias bolsistas à semelhança do que o Governo Islandês negociou com o FMI, Sim, o Governo Islandês fez essa negociação com o FMI.

Combater a ideia de que a produtividade aumenta com a redução de salários (ideia que impera e que é divulgada incessantemente pelos gurus que têm lugar na comunicação social, que passaram por cargos governativos e que hoje estão ou no sector financeiro ou nas grandes empresas portuguesas). Há inúmeras teorias e casos práticos que refutam essa ideia. Ainda neste particular, deve-se repudiar por completo aqueles que não viram esta crise que começou no sector financeiro, os mesmos que não querem ver esta crise, nem tão-pouco advogam soluções para a mesma. São estas pessoas que lutam para que Portugal se torne a China da Europa em salários, horas de trabalho e direitos sociais. Defender-se que existem razões para a baixa de produtividade, razões que têm muito mais a ver com os custos energéticos, a organização das empresas, investimento e próprio tecido empresarial do que propriamente com os trabalhadores, as horas de trabalho, os salários (miseráveis) ou outros direitos sociais.

Propor um aumento de impostos para as grandes empresas e para a banca. Justifica-se que a banca por exemplo pague 5 por cento de IRC, quando o comum do cidadãos paga valores muito mais elevados? Dificilmente o país retomará o caminho do crescimento e equilibrará as suas contas públicas enquanto se continuar a ser tão perdulário com o capital e enquanto se castiga o trabalho.

Pôr um fim à ideia errada que tem cada que cada vez mais força e que postula que as despesas com protecção social são demasiado onerosas para o país. Francisco Louça, reputado economista, olha para o problema de outra forma, defendendo que o Estado Social é antes de mais um excelente negócio, um apetecível negócio à espera de quem o conquiste. Veja-se o caso da Saúde e da Educação e a maravilha que seria para alguns se pudessem deitar a mão a estes negócios. Os tais que não são uma escolha, os tais que fazem parte da vida e que também por essa razão são tão rentáveis. Destruir o Estado Social é abrir as portas para esse negócio tão apetecível. As despesas da protecção social em percentagem do PIB correspondem, em Portugal, a 24.3 por cento (dados de 2008 da Pordata - www.pordata.pt), números que ficam abaixo da média da UE a 27 Estados.
Como Francisco Louça ressalta no seu Livro "Portugal Agrilhoado" como seria interessante deitar a mão a 20 por cento do PIB, valor a que corresponde a Segurança Social.

Outra proposta essencial passa pela
auditoria à dívida pública que, importa dizer está muito abaixo da dívida privada dos bancos. Esta proposta é avançada pelos grupos que integram o movimento dos indignados. Sem essa auditoria, o jogo é desleal. Como é que se paga uma coisa que não se conhece? Quais os interesses a bloquearem essa solução? Conhecemos a resposta para ambas perguntas. Sem essa auditoria, com a participação dos cidadãos, toda a discussão em torno da dívida perde força.

Medidas de crescimento económico. De que nos serve que a banca portuguesa, com especial enfoque na Caixa Geral de Depósitos, faça negócios ruinosos, faculte linhas de crédito para quem especula nos mercados, para quem não cria emprego? O país necessita de apostar na produção de bens transaccionáveis, precisa de indústria, precisa de produzir. É para isso que devem servir as linhas de crédito. Só assim o país pode retomar o caminho do crescimento. Um país que não produz, não cria emprego, não tem futuro.

Fim da partidocracia. É uma ideia ambiciosa, mas pode ser conseguida. Um dos maiores problemas do país prende-se com a forma como o Estado tem sido refém de partidos do arco do poder que utilizam o Estado e os seus recursos a seu bel-prazer. Há uma quantidade infindável de exemplos de como esta partidocracia tem posto em causa o futuro do país. Sem um combate à mesma, todos os outros esforços podem bem ser infrutíferos. Aqui entra evidentemente a questão da corrupção e como não poderia deixar de ser o problema da Justiça. Todos somos capazes de identificar o problema, mas temo que o mesmo não possa ser resolvido enquanto o país estiver refém de uma casta de priveligiados que se alimentam da partidocracia para enriquecerem enquanto vêem os restantes cidadãos empobrecerem a cada dia que passa.

Olhando para os números do OE de 2012 percebe-se que há uma fatia grande de dinheiros públicos que servem para pagar
juros exorbitantes. Mais de 5 mil milhões de Euros. Este é inquestionavelmente um problema intrincado. É um facto, no entanto, que aqueles que mais têm chorado por estarem numa situação difícil, são os mesmos que se financiaram a 1 ou 2 por cento para emprestarem ao Estado a 7 por cento ou mais. São os mesmos que financiaram os negócios ruinosos do Estado. Refiro-me obviamente à banca que hoje passa por vítima de um sistema que alimentou e que, em larga medida, criou. Importa reconhecer os erros do passado para não voltar a cometê-los. A propósito, refira-se também a necessidade de maior supervisão e regulação do Banco de Portugal. Ainda hoje perguntamos como é que foi possível a existência de um BPN e como é que o impacto nas contas do Estado é tão significativo. Convém não esquecer o impacto que o BPN tem nas nossas vidas.


A reestruturação da dívida deve, pelo menos, ser equacionada. Prazos mais dilatados para pagamento da dívida, daquilo que se considerar legítimo (após a auditoria). Para tal é necessária vontade política e audácia para as negociações. Na ausência de ambas, cabe aos cidadãos fazerem pressão nesse sentido.

Outra capacidade de negociação junto das instâncias europeias.
Sabemos que é nas negociações com as instâncias europeias que se consegue uma solução melhor ou pior para Portugal e reconhecemos a nossa dependência dessas instâncias europeias. A negociação do PS, PSD e CDS com a Troika foi desastrosa e mostrou o pior dos nossos governantes: a política de subserviência que, no caso concreto até serve a ideologia do actual Governo. Sem capacidade de negociação, com postura de subserviência e com a ideia de que somos pequenos e sempre seremos, o futuro será cada vez mais sombrio. Precisamos de outra postura perante as instâncias europeias. Não adianta dizer que somos reféns de uma situação criada por nós, porque isso não corresponde inteiramente à verdade, nem é solução para coisa alguma.

Devemos pugnar junto dos nossos governantes por outra política que não a política de défices em cima de défices, nem tão pouco de empobrecimento do país ao vender-se ao desbarato sectores estratégicos da economia nacional. As privatizações são indubitavelmente um negócio muito rentável para o capital estrangeiro e para algum capital nacional. Todavia, põe em causa a qualidade dos serviços e, em tantos e tantos casos, são negócios ruinosos para o Estado português. Quem perde é o cidadão. Devemos lutar por uma outra política que não aquela que nos querem impingir vestida com a roupa da inevitabilidade. Não são os baixos salários, o enfraquecimento do Estado Social e o empobrecimento dos cidadãos a levarem o país no sentido do desenvolvimento.

Off-Shores. O Governo, para inglês ver, decidiu taxar mais as transacções em off-shores. A diferença não é significativa e não combate o problema de fundo. Embora se perceba a dificuldade da questão, uma política séria para resolver o problema não faz parte do ideário dos senhores do Governo. Olhe-se com atenção para o paraíso fiscal da Madeira. Já chega de nos atirarem areia para os olhos. A este ritmo, não teremos mais do que isso: areia.

O mercado de arrendamento e a reabilitação que lhe pode anteceder seria interessantes oportunidades de negócio. Permitiriam algum alívio às empresas do ramo. Por outro lado, trata-se de uma necessidade imperiosa. Afinal de contas, o endividamento privado - elevadíssimo - nada fica a dever à febre de construção e de compra de casas com recurso ao crédito.

E ainda no plano interno, os cidadãos têm de reter o seguinte:
sem responsabilização, sem moralização, e fundamentalmente, sem interesse, o país continuará a ser dirigido por uma casta que enriquece à custa da maioria de nós. Pelo caminho, será a própria democracia a sucumbir.

Do ponto de vista externo, o Governo português, designadamente nas instâncias europeias,
não pode deixar de defender medidas que contribuam para uma Zona Euro viável onde imperem princípios de equidade. O directório Franco-Alemão têm de ser combatido. O projecto europeu nunca foi tão posto em causa como hoje.
O Governo português não deve só lutar pelas Eurobonds (o que também não fazer parte da política do Governo), deve defender a uniformização fiscal, a existência de um orçamento robusto, a mudança de filosofia do BCE que empresta dinheiro por portas e travessas ao invés de agir como um verdadeiro Banco Central. Isso fará toda a diferença.
O Governo português não se pode esquecer de defender mais união política, colocando de parte discursos inócuos (para o nosso futuro) e injustos que pretendem afastar Portugal da Grécia como se esta fosse um Estado pária.
A História vai julgar severamente esta retórica repleta de cobardia e egoísmo e que nos envergonham a todos a começar pelos próprios que recorrem a ela.
É obrigação do Governo português advogar uma Europa que combata as assimetrias sociais entre os vários Estados-membros, que faça do emprego a sua prioridade e que resista ao capitalismo selvagem.
A Europa está a perder a oportunidade de servir ao mundo como modelo. É também dever do Governo português relembrá-lo. Pelo caminho, os actuais dirigentes europeus estão a transformar a Europa num antro de fome e de miséria. Talvez fosse prudente relembrar um passado em que a fome e miséria, fruto da Grande Depressão, trouxeram para a Europa holocaustos, regimes ditatoriais e sanguinário e uma guerra mundial que foi o corolário
desse conjunto de situações.

Os cidadãos também podem pugnar por mudanças nos partidos políticos que, não o esqueçamos, são pilares do sistema democrático e devem conviver de modo salutar com a existência de movimentos de cidadãos. O que não é aceitável é a existência de partidos que, numa senda de abdicarem das suas ideologias entregues a um pragmatismo enganador, se recusem em se abrir à sociedade, se recusem em abandonar um hermetismo teimoso e que mais não são do que centros de emprego para quem orbita em torno da casta. Pede-se que esses partidos políticos encetem as mudanças necessárias para que abandonem vicíos que estão precisamente a destruí-los e a contribuir para uma clivagem cada vez mais notória entre cidadãos e os seus representantes políticos.

Os partidos políticos são determinantes num sistema democrático, mas os cidadãos também o são. Convém que quem lidera esses mesmos partidos nunca esqueça dessa premissa.


Ninguém pretende insinuar que o trabalho que se tem pela frente é fácil ou que se tudo consegue de um dia para o outro. O certo é que a política é feita de escolhas e de prioridade, mesmo quando os países atravessam crises. As escolhas dos políticos não podem passar ao lado dos cidadãos. A cidadania não se resume ao pagamento de impostos e à votação nas urnas. O exemplo disso mesmo são os resultados conseguidos em países em que a cidadania é activa e a democracia tem uma forte componente participativa. Existem formas de participação democrática e o movimento M12M refere o exemplo brasileiro, um exemplo a seguir de difícil refutação.

Todos podemos contribuir, o país só tem a ganhar. Nem todas as propostas serão exequíveis e outras são seguramente discutíveis. Contudo, já é um bom princípio participar.

Um bom contributo será através do combate à ditadura da inevitabilidade e isso faz-se com alternativas, com participação e com empenho.