sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A banca é a vítima

As declarações do Conselheiro de Estado e Presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, Luís Filipe Menezes sobre a banca são, no mínimo, curiosas. O Conselheiro de Estado afirma que a banca, no caso português, é a vítima do Estado português.
Assim, ignora-se o dinheiro que o Estado utilizou para ajudar a banca nos últimos três anos, o caso BPN e a estratégia seguida pela banca portuguesa que muito contribuiu para o endividamento privado do país.
Veja-se o caso do crédito à habitação. Em tempos de vacas gordas em que a estratégia dos sucessivos governos foi a de alimentar o endividamento, a banca não se coibiu de atribuir crédito à habitação de forma desmesurada. De igual forma, a banca portuguesa não foi obrigada a sustentar financeiramente os inúmeros negócios ruinosos em que participou com o Estado.
O sector bancário é de importância crucial para o país. Este é um facto insofismável. Porém, não se compreende a forma como a Caixa Geral de Depósitos aposta no financiamento de compra de acções, pelo menos de um investidor, e depois mostre tanta relutância em apoiar financeiramente as empresa. Assim como é difícil explicar porque razão a carga fiscal das empresas seja tão elevada comparativamente com este sector da economia.
Seja como for, e nas palavras do ilustre Conselheiro de Estado, a banca é a vítima. Discorda-se. A banca é, em última instância, cúmplice do estado em que se encontra o país, a menos que tenha sido obrigada a entrar em negócios ruinosos com o Estado e que tenha seguido uma estratégia de endividamento dela própria contribuindo para o endividamento privado do país.
Além do mais, a crise que ainda hoje vivemos teve o seu epicentro num sistema bancário voraz, noutros tempos apelidado de sofisticado, a que a banca portuguesa não foi imune. Na verdade, a vítimas somos nós, cidadãos que estamos a pagar os excessos de um sistema promotor de iniquidades.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Plano de Austeridade para a Madeira

O primeiro-ministro afirmou no Parlamento que o plano de austeridade para a Madeira para se fazer face ao buraco encontrado só será conhecido depois das eleições regionais. Passos Coelho chegou mesmo a sublinhar que terá "falado de mais" sobre o assunto. Reafirma que não é possível que o plano seja conhecido antes das eleições.
Os partidos da oposição não gostaram de ouvir essa impossibilidade. Com efeito, seria importante que os madeirenses conhecessem o seu futuro antes das eleições, mas garantidamente isso não vai acontecer.
Na Madeira, o ainda Presidente da Região Autónoma da Madeira continua a ser igual a si próprio. Na verdade ninguém pode honestamente afirmar que as imagens que vemos da campanha eleitoral do Sr, Jardim são de algum modo uma surpresa. E quem o afirme tem andado seguramente distraído.
O caso da Madeira é sintomático de um país que ou anda desinteressado ou venera quem escolhe para o representar. Neste caso da Madeira, aplica-se a segunda premissa. No âmago de muitos Portugueses, da Madeira e não só, existe a propensão para enaltecer quem é autoritário, quem mostra não saber viver em democracia, quem se comporta como se fosse dono de uma feitoria. Não sei se será masoquismo ou se serão reminiscências do passado. O que sei é que essas escolhas também são responsáveis pela situação deplorável em que nos encontramos.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Perda de soberania

Angela Merkel quer menos autonomia para os países que não ultrapassem os valores de 60 do PIB de endividamento e os três por cento de défice. Esta proposta implica a perda de soberania dos Estados pertencentes à Zona Euro. A medida agrada a algumas vozes que acreditam que só desta forma este país que não se sabe Governar entrará na linha. Veja-se o artigo de opinião de hoje no Jornal I, escrito por António Ribeiro Ferreira.
Neste blogue a opinião é outra. Apesar de todos os problemas que o país atravessa, não podemos de deixar de acreditar nele, fazendo concessões de soberania em troca de uma mão cheia de nada.
Além do mais, importar não endeusar a Alemanha que não é o melhor exemplo de pagamento de dívidas e que tem sido um país que, embora seja o maior contribuinte da UE, é também um país que tem beneficiado com a Zona Euro. Este é um facto indiscutível.
Repito que a Zona Euro não estaria a atravessar os problemas das dívidas soberanas se os países não se tivessem de socorrer a banca, a mesma que hoje morde a mão daqueles que a alimentaram e se a Europa se mostrasse mais coesa. Se a Alemanha, a endeusada Alemanha, tivesse reagido atempadamente ao problema grego, o problema não teria estas dimensões.
A solução para os problemas do Euro pode passar por perdas de soberania, designadamente política, mas isto numa Zona Euro em que 17 países possam de facto participar e não através da transformação daqueles que hoje estão em posição mais fragilizada em protectorados da Alemanha. A Zona Euro poderá funcionar se existir um orçamento digno desse nome, se existir uniformização fiscal, harmonização das economias e dos sistemas sociais. A Zona Euro necessita de deixar de se submeter aos mais acérrimo neoliberalismo. Nada disto será possível com Merkel. A propósito, Sarkozy sofreu um revês eleitoral que o afasta cada vez mais da reeleição. Sinais de que ninguém estará satisfeito com as actuais lideranças.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Mais uma semana decisiva

Mais uma semana decisiva para Grécia. O suspense repete-se ao longo de quase dois anos, derrocada atrás de derrocada, procura-se reerguer um país incapaz de voltar a ter um crescimento conducente ao pagamento dos seus compromissos.
Estou convencida que ainda não será desta que a Grécia entrará em incumprimento. Países como a Alemanha não beneficiariam de um hipotético incumprimento da Grécia com resultados negativos para a banca alemã. No entanto fica-se com a sensação de que tudo não passa de um adiar de um destino por todos adivinhado - o incumprimento. Ainda assim, percebe-se que a Alemanha equaciona a possibilidade de se ter de proceder a uma reestruturação da dívida grega. Seria preferível evitá-la, na óptica da Alemanha, mas o cenário se mantiver, a Grécia não terá outra alternativa.
A situação grega torna-se ainda mais intrincada num contexto em que se avizinham problemas graves noutros países como o caso de Espanha e de Itália. Nessas circunstâncias já se percebeu que não há dinheiro que chegue para socorrer a quarta e a terceira maiores economias da Zona Euro. Discute-se a possibilidade do alargamento do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. Mantém-se a mesma ortodoxia que tem alimentado o estertor da Europa. Quanto a isso, nada muda. E dificilmente mudará, mantendo-se estes mesmos intervenientes.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Cinco mil milhões

Alberto João Jardim assumiu que a dívida da Madeira ronda os cinco mil milhões de euros, um valor assustador, mas não muito diferente dos passivos das empresas públicas, do dinheiro desbaratado com as parcerias público-privadas, com BPN que deram um forte contributo para a situação enfraquecida do país.
Seja como for, os Madeirenses têm agora, pelo menos, mais cinco mil milhões de razões para escolherem outra pessoa para liderar a sua região. Isto partindo do pressuposto de eram necessárias ainda mais razões do que aquelas que conhecemos.
Já aqui se sublinhou que o buraco da Madeira não é um problema único e ainda mais grave do que o buraco em si, foi a sua ocultação. Todavia, o continente não se tem pautado por um comportamento diametralmente oposto. A má gestão da coisa pública, quer por negligência quer pela salvaguarda de interesses alheios aos cidadãos, é uma prática comum nos últimos 30 anos. A isto acresce a total ausência de visão estratégica das pretensas elites, a existência de uma cultura que deixa muito a desejar e, nos últimos três a quatro anos, a eclosão de uma crise internacional que começou no sector financeiro e que não foi resolvida, mas remendada e o resultado é o que se vê: um país depauperado. Nós, por norma, adoptamos duas posturas ou nos resignamos ou saímos do país compreensivelmente em busca de uma vida condigna. E assim vai o nosso país.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Despedimento

O Governo pretende alterar o despedimento por justa causa, deixando este de estar dependente da introdução de novas tecnologias ou alterações no local de trabalho.
Assim, pretende-se incluir as questões de produtividade e o cumprimento de objectivos. Ora estas duas premissas estão carregadas de subjectividades que podem dar aso a despedimentos abusivos. Ora, a produtividade nem sempre é mensurável e mesmo a questão dos objectivos pode ser deturpada. Isto torna-se mais grave num país cujo tecido empresarial não tem qualquer visão estratégica, salvo escassas e honrosas excepções.
Sabemos que este Governo alimenta a velha máxima de que é preferível um emprego precário à falta de emprego. Uma velha máxima que deixa muito a desejar.
De qualquer modo, não ficamos surpreendidos. A flexibilização dos despedimentos é uma premissa central da ideologia defendida pelo actual Governo. Talvez muitos não tivessem pensado nessas e noutras questões há três meses atrás.
Em suma, assistimos a mais um retrocesso no bem-estar dos cidadãos, retrocesso esse que se vai consubstanciar em mais precariedade. Os partidos da oposição, em particular o PS mostra uma tibieza assustadora, manifestando indecisões e indefinições que já não se justificam. Resta-nos os partidos mais à esquerda que combatem estas formas de precariedade, mas que se encontram condicionados pela sua pequenez e, não raras vezes, por óbices ideológicos que tornam as soluções e alternativas hipotecadas. Em mais esta questão os cidadãos trabalhadores não poderão contar com o PS que nos tempos de José Sócrates não teve a visão mais justa do trabalho.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Mais austeridade

Enquanto por terras lusas, a novela da Madeira continua a dar que falar, numa espécie de exercício de surpresa colectiva, na Grécia (o pária) se preparam novas medidas de austeridade. Essa será a contrapartida para o Estado grego receber a tranche de oito mil milhões. Recorde-se que o Estado grego deixa de poder honrar os compromissos no próximo mês.
A austeridade continua a ser a panaceia de todos os problemas da Zona Euro. O caso grego, de longe o mais intrincado, tem sido continuamente agravado com as políticas de austeridade. A economia grega afunda-se de dia para dia com elevados custos para os cidadãos. Com tanta austeridade, a economia grega contrai cinco por cento, o desemprego sobe, o desespero cresce.
A exposição da banca alemã e francesa à dívida grega levam os líderes destes países a agirem no sentido de evitar o incumprimento grego. Assim, atira-se dinheiro emprestado para cima de uma dívida já por si elevadíssima, em troca de duras medidas de austeridade. O resultado tem sido o que se vê.
A Grécia é indiscutivelmente um Estado pária, todos se procuram afastar dela como o Diabo da cruz, dando uma péssima imagem do projecto europeu e deitando por terra os princípios de solidariedade - base da construção europeia.
A responsabilidade é dos Gregos, dir-se-á. Não devemos contudo esquecer que a manipulação e ocultação das contas (que por cá também se faz) foi conseguida com a coadjuvação - para não ir mais longe - da banca internacional.O contágio que se seguiu tem subjacente uma premissa convenientemente esquecida: os países alvos desta panaceia da austeridade são, regra geral, os mesmos que despenderam dinheiros públicos para resgatar a banca de problemas criados por um sistema financeiro desregulado e selvagem. Consequentemente, as dívidas e défices aumentaram incomensuravelmente. Não deixa de ser curioso que quando a França rompeu com as obrigações inerentes ao Pacto de Estabilidade e Crescimento não tenha caído o Carmo e a Trindade.
Seria interessante enveredar-se pelo caminho das auditorias - feitas por entidades idóneas e independentes - das dívidas de países como a Grécia e até Portugal para se perceber que dívidas são estas de que tanto se fala, como foram contraídas, a quem, para quê, em que condições.
Não, não será esse o caminho. Dizem-nos que isso poderia inquietar ainda mais os mercados. Ou será que inquietaria países como a Alemanha que ainda há pouco tempo vendeu cinco submarinos a uma Grécia depauperada.
Vivemos tempos em que os cidadãos são escandalosamente ludibriados, quer pelos responsáveis políticos nacionais, quer por uma União Europeia que a cada dia que passa nos envergonha a todos.