quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sucessão no PS

Francisco Assis e António José Seguro são, até ao momento, os possíveis sucessores de José Sócrates. Um conta com os apoiantes de Sócrates, o outro destacou-se por ter se afastado de José Sócrates. Seja como for, o PS necessita uma profunda mudança, depois de largos anos de liderança de José Sócrates.
Com efeito, a liderança de José Sócrates deixou uma marca indelével no Partido Socialista, trazendo à superfície os podres do partido. Foi notória a estranha consonância em torno do líder, a oposição interna foi quase inexistente, o caciquismo e a partidocracia marcaram estes anos.
Qualquer que seja o futuro líder do partido tem que romper com este passado recente. Não chega ter o apoio das bases do partido ou das estruturas locais e regionais quando os cidadãos se afastam inexoravelmente da política. Os líderes dos partidos políticos têm que perceber que hoje, talvez mais do que nunca, são necessárias mudanças, caso contrário é o futuro da democracia e por inerência, dos partidos políticos que está em causa.
Desde logo, torna-se imperativo que o novo líder do PS, seja ele quem for, discuta política e faça um esclarecimento ideológico. Não chega auto-intitular-se socialista para depois a prática vir desmenti-lo.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O problema grego

Não deixa de ser inquietante que um país, por razões meramente financeiras, seja tratado como um problema e, não raras vezes, seja mesmo tratado como se tratasse de um pária. É precisamente isso que está acontecer com a Grécia. As suas dificuldades de financiamento e orçamentais transformaram-se em crimes aos olhos das instituições europeias e de alguns países europeus cuja memória é incomensuravelmente curta.
Discute-se agora a possibilidade de reestruturação da dívida, surgindo divergências entre BCE e países como a Alemanha. Nesta farsa chamada Europa, os consensos são invalidados em virtude de palavras como a "solidariedade" e "bem-estar" social terem desaparecido. Talvez se se tivesse olhado atempadamente para a Grécia numa perspectiva de solidariedade, os problemas que hoje a Europa atravessa não existiriam ou não teriam esta dimensão.
A Alemanha, por sua vez, age como se estes problemas que afectam as chamadas economias periféricas não viessem a ter efeito na sua própria economia - a Alemanha que tem contribuído de forma inigualável para a construção Europeia e para a Zona Euro, mas também o país que mais tem beneficiado.
A União Europeia encontra-se numa encruzilhada: ou encontra soluções no quadro dos valores basilares da construção europeia - valores de solidariedade em busca do bem-estar social, ou aproxima-se do seu fim, começando pela saída de países da Zona Euro, deitando por terra um dos projectos mais promissores que o mundo já conheceu.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Novo Governo

Depois das eleições de domingo que deram uma maioria ao PSD e ao CDS em coligação, espera-se agora que os dois partidos se entendam para formar Governo. Já se percebeu que não há tempo a perder.
Este novo Governo - o que sair do entendimento entre os dois partidos - não tem tempo a perder. Há um caderno de encargos para cumprir chamado memorando de entendimento.
O novo Governo já animou os mercados. Trata-se afinal de um Governo de maioria e ainda para mais de direita. Razões mais do que suficientes para agradar aos mercados. Além do mais, Passos Coelho já sublinhou a vontade do seu partido em ir mais longe do que a Troika. O novo primeiro-ministro quer surpreender. Desconfia-se que quem vai sair surpreendido de toda esta história são muitos Portugueses que votaram neste PSD.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Resultados das eleições

O PSD ganhou as eleições com uma vantagem considerável, provavelmente acima do que muitos esperavam, sobre o PS e, em consequência, talvez a melhor notícia da noite: José Sócrates abandonou a vida política activa, pelo menos garantiu que não ocupará nenhum cargo político nos próximos tempos. O CDS consolidou a sua vantagem e fará parte do novo governo em parceria com Pedro Passos Coelho. A CDU ainda conseguiu eleger mais um deputado e o Bloco de Esquerda foi o outro grande derrotado da noite.
A primeira ilação a retirar dos resultados de ontem é que a direita está em clara vantagem no parlamento e será a direita naturalmente a formar governo. Assistiu-se a uma inversão que embora esperada, foi talvez mais longe do que se pensaria. Aqui entende-se direita, no caso do PSD do ponto de vista das políticas económicas e no caso do CDS a sua posição tem sido de centro-direita.
Destas eleições, o PS deverá escolher uma nova liderança e deverá perceber que se José Sócrates tivesse abandonado o cargo atempadamente, a noite de ontem não seria tão desastrosa. O Bloco de Esquerda também deverá fazer uma profunda reflexão, recorde-se que este partido perdeu cerca de metade dos deputados.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O voto

No próximo domingo os cidadãos vão escolher uma nova composição da Assembleia da República. Como todas as sondagens indicam e como não se trata propriamente de uma surpresa, já se percebeu de que forma é que será constituída a Assembleia da República, ou seja os mesmos do costume.
De facto as dúvidas ainda se prendem com que formará Governo, embora tudo indique que será o PSD, e com quem.
O sentido de voto em Portugal e em grande parte dos países ocidentais está manifestamente condicionado pela comunicação social, por muito que se finja que as pessoas são livres para escolher a verdade é que essa pretensa liberdade é condicionada pela informação e pela exposição que chega às pessoas. Por conseguinte, neste jogo distorcido, quem tem uma ampla exposição tem mais probabilidades de ser eleito, deixando pouco espaço para quem tem uma dimensão mais pequena e não conta com a atenção dos média. A excepção são pessoas como o candidato presidencial madeirense, José Manuel Coelho, que consegue atrair a atenção da comunicação social recorrendo a práticas pouco ortodoxas.
De igual modo, os partidos mais pequenos não contam com máquinas partidárias e com o dinheiro que os partidos do espectro do poder contam. Não há uma grande mobilização de militantes, não há autocarros cheios de pessoas que amiúde nem sabem ao que vão e, essencialmente, não há o aparato da comunicação social sempre à espera do espectáculo deplorável com que os principais partidos nos brindam.
O voto é por muitos interpretado como uma forma de escolha, mas também deve ser encarado como um meio de castigar quem pouco tem feito pelo país e pela democracia portuguesa. Infelizmente, não é isso que as sondagens nos dizem, nem será certamente isso que vai acontecer no próximo domingo. Esquece-se com demasiada frequência que as mudanças tão necessárias aos partidos não vêm do seu interior e não serão de sua iniciativa. Enquanto os cidadãos continuarem a compactuar com a actual situação, nada mudará.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Cultura democrática

As crises económicas têm consequências a vários níveis e quanto mais profundas mais se agudizam determinadas características de muitos cidadãos com maior ou menor responsabilidade. Depois de semanas exasperantes e campanha eleitoral, ficou bem patente a ausência de cultura democrática que prolifera em alguns partidos e, não menos importante, em muitos cidadãos.
A falta de respeito pelos comícios dos partidos e a consequente e inadmissível forma como membros desses mesmos partidos lidam com a falta de cultura democrática, demonstrando eles próprios um défice democrático diz muito do nosso pais.
Desde políticos como o ainda primeiro-ministro que pouco ou nada fez para consolidar a democracia portuguesa até ao cidadão comum que em tempos de desespero almeja por quem ponha isto na ordem ou cai em saudosismos pouco saudáveis, a verdade é que o país não tem apenas um défice das contas públicas, há um outro défice pouco discutido que torna o país mais pequeno a cada dia que passa.
Na verdade, o país depois de anos de encerramento intelectual e prostração psicológica, continua a demonstrar que a cultura democrática não faz parte das preocupações, muito pelo contrário.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Campanha eleitoral e o Estado Social

De nada adianta andar-se a apregoar a defesa do Estado Social se não existirem meios de garantir a sua sustentabilidade. De igual modo, há quem alegue fazer a sua defesa, mas subvertendo a própria natureza do Estado Social. Ambas as posições podem ser encontradas nas propostas dos principais partidos.
De resto, é notório que a discussão em torno do Estado Social que pretende servir de bandeira do Partido Socialista tem caído reiteradamente na mais abjecta vacuidade. De facto, não se discute o Estado Social, a forma de garantir o seu financiamento e a própria filosofia que lhe subjaz. Apenas se afirma fazer a sua defesa.
Não se retira nada de elucidativo sobre o Estado Social e sobre outros assuntos desta campanha eleitoral. O tempo é gasto em frases de acusação mútua numa espécie de exercício pueril e desfasado da realidade que nos atinge.
Sobre o Estado Social importa perceber se a sua abrangência é viável, se não deveria estabelecer um conjunto de prioridades na área da Saúde (com o reforço do Sistema Nacional de Saúde), na área da Educação e Segurança Social. Infelizmente, esta e outras questões têm sido ignoradas por quem se propõe governar Portugal em conjunto com a Troika, claro está.