terça-feira, 31 de maio de 2011

Contagem decrescente

A escassos dias do fim da campanha eleitoral, torna-se difícil esconder o meu contentamento. Aliás, é um misto de contentamento e de alívio. O fim da campanha eleitoral representa o fim de semanas de agonia própria de partidos políticos que discutiram tudo menos políticas e que se distanciaram da realidade dura que se avizinha. O comportamento dos seus líderes tornou-se mesmo exasperante, tal é o desfasamento entre o seu discurso ou vacuidade - como lhe queiram chamar - e a realidade dos factos.
Por conseguinte, e independentemente de quem sai vencedor das eleições de dia 5 de Junho, a verdade é que o programa está estipulado, tem a designação de memorando de entendimento e todos clamam pelo seu cumprimento integral. A ver vamos se o seu cumprimento escrupuloso será suficiente.
Até ao próximo fim-de-semana, a campanha vai intensificar-se. Não no sentido da discussão de politicas, mas antes através de polémicas e vacuidades várias. Até ao próximo fim-de-semana vamos ouvir os mesmos senhores que são responsáveis pelo descalabro do país agirem como se a culpa fosse do vizinho do lado - os mesmos que nada fizeram para melhorar o estado da Justiça; os mesmos que usaram a educação para tudo e para mais alguma coisa menos para o seu fim; os tais que instituíram a partidocracia; os tais que nada fizeram para combater a corrupção; os mesmos que trocaram o tecido produtivo pelo endividamento. Um deles vai governar o país.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Democracia enfraquecida

Paradoxalmente, a democracia sairá enfraquecida das eleições que se aproximam. Sai enfraquecida pela ausência de entusiasmo que criou numa vasta franja da população que preferia ver discutidas ideias do que a constante troca de acusações de quem já nada tem para oferecer ao país. Sai enfraquecida porque a própria soberania do país é posta em causa com o entendimento entre os principais partidos e instituições europeias - o verdadeiro programa eleitoral é o memorando de entendimento. A democracia sai enfraquecida culpa dos principais partidos políticos que se mantêm herméticos, enclausurados numa redoma de interesses próprios e cegos às próprias sociedades.
Não são as repetidas imagens que as televisões passam de uma campanha eleitoral em que os líderes do PS e do PSD surgem rodeados de multidões de fervorosos adeptos, perdão, simpatizantes que nos dizem que estas eleições entusiasmam a generalidade dos portugueses, pelo contrário, os partidos precisam dessas pessoas para criar a ilusão que está tudo muito bem.
Não está tudo muito bem. A perda de soberania do país aliada a uma descrença crescente relativamente aos políticos mina a democracia. Os partidos políticos que alternam o poder entre si agem como se tudo estivesse bem e, infelizmente, muitos cidadãos insistem em dar votos de confiança a quem recusa a mudança, a quem insiste nos erros e agarra-se aos vícios. Embora, a democracia seja a regra da maioria e a maioria não pareça particularmente entusiasmada com estes partidos políticos, o certo é com maior ou menor dispersão de votos os partidos do costume são eleitos.
Para finalizar, importa sublinhar que a abstenção tem sido consideravelmente alta, o que é sintomático da tal descrença dos cidadãos relativamente à política. Todavia, a não participação na democracia nunca será solução para resolver os problemas que se têm vindo a instalar no nosso sistema democrático.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Ruído

Não serei seguramente a única a ansiar pela chegada do dia 5 de Junho, não por alguma espécie de entusiasmo em torno das eleições que se avizinham, mas antes por ser esse o dia em que o ruído dos vários partidos cessa, embora o dia 4 de reflexão já nos permita deixar de ouvir o ruído.
Com efeito, em nenhum momento os partidos políticos demonstraram ter ideias. E quanto maior o partido menor a capacidade de discutir alguma coisa remotamente parecida com uma ideia.
Paralelamente, todos agem como se tivessem margem para governar. O programa da troika é, infelizmente, o verdadeiro programa político, mas todos se comportam como se assim não fosse. De igual forma, os problemas de uma Europa que parece caminhar para o seu último estertor não faz parte da campanha dos principais partidos. Tudo o resto é ruído e é com esse ruído que é feita a campanha eleitoral.
Até dia 4 de Junho, os cidadãos vão ouvir repetidamente que estas são as eleições mais importantes da democracia portuguesa e que é preciso responsabilidade, vão ouvir elogios à sua sensatez. Estas são formas de se dizer às pessoas que a importância destas eleições exigem responsabilidade e merecem bom senso; por outras palavras votem nos mesmos.
E é isso que se vai passar. As ilusões que contrastam com as desilusões redundam invariavelmente no mesmo - na escolha de partidos comprometidos e responsáveis pela situação irreconhecível do país; partidos sem soluções; partidos conspurcados por lideranças tíbias e interesseiras.
Contradiz-se enfatizando o facto de não haver escolhas. A realidade é que nenhum destes partidos que se propõe governar mudará enquanto continuar a contar com o apoio dos cidadãos, um apoio que sairá reforçado no dia 5. Depois vêm as lamurias, o descontentamento, os queixumes, como de resto tem sido hábito nas últimas três décadas. Ou seja, mais ruído sem consequências.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Cultura

As crises têm destas coisas, tudo, ou quase tudo é relativizado. A cultura, com ou sem ministério, passará a ser mais uma das áreas onde imperará a ideia de contenção de custos, o que não é necessariamente negativo. O que de facto é negativo é a sua relativização ou mesmo menorização.
A cultura será invariavelmente uma área em que os cortes, independentemente se fazem ou não sentido, terá um suposto impacto menor. Os cidadãos têm maior relutância em aceitar cortes em áreas como a saúde ou educação, mas dificilmente se poderá assistir a manifestações em prol da cultura, exceptuando naturalmente pequenas manifestações compostos por intervenientes nessa área.
É também evidente que o ministério da cultura é para muitos um mero distribuidor de subsídios, muitos deles pouco compreendidos pela generalidade das pessoas. Mas o ministério da cultura tem que ser muito mais do que isso, tem que ser promotor, tem que divulgar, tem que defender o que é criado em Portugal, deve ter atenção ao património nacional tantas vezes desprezado, tem que articular-se com o ministério da educação e, essencialmente, não pode deixar que a cultura seja relativizada.
Escusado será repetir que a cultura tem impactos a vários níveis e que é fundamental até do ponto de vista do desenvolvimento do país.
O PSD discute a possibilidade de acabar com o ministério da cultura. A medida em si pode não ser necessariamente negativa, embora na actual conjuntura e na senda de poupança esta medida levanta as mais naturais dúvidas.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Ainda a Grécia

O chumbo de novas medidas de austeridade por parte dos principais partidos da oposição grega, que poderá inviabilizar a chegada da última tranche do empréstimo acordado com a UE e o FMI, deixa a Grécia e a própria Zona Euro numa posição periclitante. As medidas de austeridade iriam traduzir-se por mais cortes nos salários e pensões, para além de um vasto programa de privatizações.
A Europa considerou que a melhor forma de combater o ataque dos mercados aos países periféricos que muitos apelidam de crise das dívidas soberanas através de austeridade e redução radical dos défices e do endividamento. A realidade mostra que essas medidas draconianas não são a solução. Além disso, a inexistência de mecanismos de contenção deste tipo de problemas no seio da Zona Euro e a mais abjecta liderança europeia deixam os países da Zona Euro vulneráveis a ataques que agravam a situação já difícil do seu endividamento.
A Grécia, um pilar da identidade europeia está agora sujeita a um misto de humilhações e aniquilamento do bem-estar social dos seus cidadãos. Infelizmente, os países que dominam a Zona Euro e a própria Europa, designadamente a Alemanha que tanto beneficiou com o endividamento e desindustrialização dos países periféricos mostrou desde a primeira hora um egoísmo que lhe será igualmente prejudicial.
Os problemas da Grécia são os problemas de todos os países Europeus, designadamente aqueles que pertencem à cada vez mais malograda Zona Euro. Portugal, muito em particular, deve olhar com grande atenção para o que se está a passar na Grécia. Aqui, neste nosso país surreal, e em plena campanha eleitoral todos se comportam como se tivessem grande margem para governar, quando na verdade o programa foi imposto por fora e chama-se Memorando de Entendimento - um belo exemplo da ideologia liberal dominante e persistente. Todos, ou quase todos, se comportam como se fosse possível ultrapassar esta crise com juros, dívidas e recessão. Agora pedem responsabilidade ao eleitorado - é preciso um governo sólido, uma boa equipa para cumprir o programa da Troika. As ilusões continuam e muitos cidadãos assinam por baixo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sondagens

Hoje, tal como nos dias anteriores, comenta-se mais uma sondagem. Desta vez o PSD consegue um avanço significativo sobre o PS e em conjunto com o
CDS tem maioria absoluta. Trata-se de mais uma sondagem que revela um dos melhores resultados do PSD, nas últimas semanas. Mas é apenas isso, uma sondagem.
A sondagem da Intercampus não surpreende. O primeiro-ministro devia ter seguido o exemplo do seu amigo Espanhol, não o fez, insiste em se agarrar ao poder e agora faz ou alega que vai fazer a defesa do Estado Social, quando nos últimos seis anos mais não fez do que contribuir para o seu enfraquecimento.
O PSD, com todos os percalços e com um recuo no discurso mais liberal vai fazendo o seu caminho.
Estas eleições, sobretudo se o PSD vencer, devem servir como lição para o Partido Socialista que se tornou o Partido de Sócrates, abdicando da sua identidade, fazendo tudo para estar no poder e alimentar clientelas. Ao que tudo indica, agora será a vez do PSD alimentar as suas também vastas clientelas com o pouco que ainda há para distribuir.
Seja como for, a verdade é que todos os expedientes impostos pela Troika nem sequer serão medidas de transição. Portugal à sua dívida onerosa terá que somar os juros do pedido de empréstimo, as PPP e as dívidas das empresas públicas. A dívida nessa altura poderá ascender a 150% do PIB. E depois? Pede-se mais dinheiro? Reestrutura-se a dívida? O partido, ou melhor, os partidos que saírem vencedores destas eleições serão confrontados com esta realidade. Curiosamente, PS ou PSD são precisamente os mesmos que contribuíram para o actual estado de coisas.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Saídas para a crise

É por demais evidente que é imperativo que os partidos que se propõem governar o país discutam saídas para a crise. E embora essas saídas sejam manifestamente condicionadas pela evolução da economia portuguesa, não deixa de ser necessário que sejam discutidas.
De facto, o país está confrontado com uma situação muito intrincada: entre juros, PPP e dívidas de empresas públicas é expectável que todas as soluções apontadas neste momento sejam falíveis. De qualquer modo, espera-se que, apesar de todos os condicionamentos fruto do entendimento com a troika e consequência da grave situação do país, os partidos políticos apontem soluções para o crescimento da economia e para a consolidação das contas públicas.
As soluções serão seguramente onerosas, mas também têm que o ser para aqueles sectores da sociedade que têm escapado mais ou menos incólumes aos sacrifícios pedidos. É evidente que são os mais desfavorecidos e a classe média os mais sacrificados.
Podemos estar certos do seguinte: depois de anos de descalabro, não serão PS, PSD ou CDS a encontrar soluções para o país - estes partidos estão comprometidos com um modelo de desenvolvimento que apenas desenvolveu as contas bancárias de alguns priveligiados, enquanto empobreceram o resto do país. É preciso ter isto em conta no dia 5 de Junho.