quarta-feira, 11 de maio de 2011

Ainda as ilusões

As críticas aos vários partidos políticos que têm assento parlamentar são recorrentes, mas a postura do ainda primeiro-ministro e a passividade e subserviência do PS são surreais. As ilusões continuam a ser o centro da retórica do primeiro-ministro. A julgar pelas suas intervenções, a sua governação foi extraordinária, garantindo um país com futuro. Ignora-se o facto do país estar na pior situação económico-financeira do último século.
Já aqui se referiu o peso que a crise internacional e a voracidade dos mercados financeiros tiveram no desfecho que conhecemos, mas seria pouco honesto não reconhecer que fomos atacados precisamente por estarmos numa situação fragilizada - situação essa que foi consideravelmente agravada pela a acção do Governo de José Sócrates. Défice, dívida e ausência de crescimento económico e, ainda mais grave, ausência de perspectivas desse mesmo crescimento económico foram determinantes. Há responsáveis e José Sócrates é um indubitavelmente o maior responsável.
Contrariamente ao que se tem repetido nos últimos dias, o maior erro - um entre muitos - da governação socialista foi ter demorado tanto tempo a perceber a crise internacional e os seus impactos, não tanto a questão da "ajuda" externa, aquilo que se percebe que não está a surtir efeitos na Grécia. Se o Governo tivesse percebido ou quisesse reconhecer a gravidade da crise que teve o seu zénite em 2008 teriam sido tomado medidas, designadamente as contrárias às que foram tomadas. Reconheço a coragem de se querer investir na altura em questão, mas os luxos da Administração Pública, as negociatas entre poder político e poder económico e a cegueira eleitoral foram erros crassos que o PS ainda hoje parece não reconhecer nem sequer querer inverter.
O mais grave é precisamente esta ilusão que se pretende passar aos cidadãos. Ora num país onde grassa a ignorância e a indiferença, essas ilusões passam por factos. Também tem sido esse o nosso problema.
Preste-se atenção ao destino dos Gregos que pode muito bem ser o nosso.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Grécia

Os problemas em torno da dívida soberana grega continuam em recrudescimento. Nem as tão apregoadas medidas impostas pelo FMI parece estarem a surtir efeito, pelo contrário, terão agravado a dificuldade deste país recuperar. Agora discute-se a possibilidade da Grécia receber um segundo pacote de ajuda, no valor de 60 mil milhões de euros. Volta-se a insistir em receitas que não estão a surtir efeitos e aguardam-se quais as compartidas dessa ajuda - mais austeridade? Mais recessão? Mais desemprego? Mais miséria?
O que está a acontecer à Grécia não pode ser analisado como um problema comum, um problema europeu. Embora o anterior governo grego tenha demonstrado uma acentuada irresponsabilidade, não é menos verdade que a Europa demorou muito tempo a responder ao problema grego, permitindo que os problemas se agravassem sobremaneira. Era e é mais importante responder aos ímpetos egoístas dos eleitores de cada país do que resolver um problema cujas consequências serão para todos. Estou certa que ainda não se aprendeu essa lição. Deve exigir-se responsabilidades, mas ao esquecer-se os princípios fundadores da UE, deixou-se os problema agravar-se e alastrar-se e descaracterizou-se o próprio projecto europeu.
Salvo as devidas distâncias, Portugal deve retirar as necessárias ilações daquilo que está a acontecer com a Grécia. Não parece ser o caso daqueles senhores que se candidatam a formar o próximo Governo, a começar no ainda primeiro-ministro cuja protelada reacção à grave crise internacional tornou a vida de todos nós particularmente difícil. Recorde-se que ainda em 2009 - mais de um ano após o início da crise do subprime - este primeiro-ministro apresentava-se a eleições, pintando um país perfeito fruto da sua péssima governação ao longo dos anos. É precisamente de políticos assim que não precisamos
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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Razões externas e internas

As dificuldades que obrigaram o Governo português a recorrer à famigerada "ajuda externa" são consequência de erros cometidos internamente, mas também são a consequência de circunstâncias externas de ataque concertado às economias mais frágeis da Zona Euro, num claro ataque à própria moeda única.
A União Europeia que deixou o seu destino nas mãos de fracas lideranças como é o caso da chanceler alemã e do Presidente francês, vive refém de políticas que mais não fazem do que agravar a já difícil situação das chamadas economias periféricas.
Não deixa de ser curioso ver o ataque dos mercados a países como Portugal, Grécia, Irlanda e Espanha quando deixaram de fora países com situações económico-financeiras muito débeis como é o caso da Itália. Neste contexto de globalização financeira, em que as agências de rating conseguem ter mais poder do que governos legitimamente eleitos, não seria de esperar outra coisa do que um ataque a estes países, ataques que redundam em intervenções de entidades como o FMI e em políticas de desemprego, de recessão, de miséria. Estes são factos, os erros cometidos pelo ainda Governo e pelos seus antecessores não devem ser esquecidos, mas será desonesto não perceber as graves circunstâncias externas fruto de um neoliberalismo que empobrece os cidadãos a cada dia que passa e que procura substituir as instituições democráticos. Esta é uma das maiores batalhas que os cidadãos terão de travar nos próximos anos - a batalha da recuperação da soberania. O que está em causa não é apenas o bem-estar social, mas também a própria democracia.
Quanto às razões internas já foram suficientemente explanadas em artigos anteriores.
Como alguém me disse ontem, é imperativo deixarmos de insistir apenas nos erros do passado. Todos nós, e também quem escreve, tem massacrado as pessoas com os erros do passado; erros de governos, erros de nós próprios. Esta crise é mais um teste para um povo que nunca se deixou vergar, e seguramente não será agora que se deixará. Hoje é fundamental que se recupere a força anímica para lutar, continuar a lutar por aquilo que consideramos ser mais digno. É determinante procurarmos fugir ao negativismo que nos assola. Hoje precisamos de ideias, de acção, de determinação, e não de resignação ou de pessimismos mais ou menos infundados. Olhemos para o passado recente apenas para não voltar a cometer os mesmos erros, como é explícito em artigo imediatamente anterior; abandonemos a eterna indiferença e resignação que nos têm caracterizado. Queremos acreditar no futuro, mas para isso é preciso começarmos a construí-lo e nada se construí com indiferença e desinteresse.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Esquecer o passado

Parece ser a palavra de ordem de muitos cidadãos, a julgar pelos resultados das sondagens. Esquecer o passado, em particular o passado recente. Talvez isso justifique as sondagens que dão o PS à frente dos restantes partidos da oposição.
O que está em causa nas eleições de dia 5 de Junho é essencialmente responsabilizar os representantes políticos que nos trouxeram até uma situação de agonia e humilhação. Não parece ser o que está em causa, pelo menos para aqueles que participam nas sondagens. Os outros que foram coniventes (uns mais do que outros, é certo) também não serão particularmente prejudicados.
É assim que Portugal é humilhado e passa a estar sob jugo de entidades internacionais, levando os seus cidadãos ao ponto da insustentabilidade. As dificuldades que vão recrudescer e as que afectam tantos e tantos Portugueses não são, apesar de tudo, razões suficientes para penalizar quem tanto prejudicou o país.
Entretanto discute-se a possibilidade de um pedido de ajuda externa antecipado ter sido menos doloroso para o país. Para além dos óbvios exercícios de futurologia, a verdade é que as medidas que fazem parte da "ajuda" fogem um pouco àquilo que foi aplicado na Grécia e na Irlanda precisamente porque agora se perceber que esses mesmos pacotes não surtirem o efeito desejado.
Seja como for, e para além das razões exógenas que nos trouxeram até este triste estado, há responsáveis políticos e as repercussões nas intenções de voto seriam expectáveis. Não parece ser assim. Pelo caminho ouve-se um elemento da Troika falar sobre a necessidade de um governo de maioria para implementar as medidas. Não deixa de ser constrangedor ouvir alguém de fora dar instruções sobre o futuro político português. Paralelamente, será frequente a multiplicidade de apelos ao sentido de responsabilidade dos Portugueses no momento do voto - instabilidade política necessita-se, dir-se-á.
Esqueçam o passado. Mais do que uma ajuda financeira "ajuda", estou cada vez mais convencida que precisámos antes de ajuda psiquiátrica.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Um país mais pobre

Depois do anúncio das medidas anunciadas hoje pela Troika, mas entretanto conhecidas, percebe-se que José Sócrates cumpre aquilo que prometeu numa intervenção que foi considerada um tropeção na língua: José Sócrates prometeu um país mais pobre e parece querer cumprir.
As medidas anunciadas, resultado das negociações com a Troika apontam como alvo a classe média que atolada em impostos procura manter a cabeça à tona de água. Mais impostos, mais empobrecimento para quem trabalha e aprofundamento da agonia de quem está no desemprego, no fundo é esta a receita negociada com a Troika e da qual José Sócrates parece ter tanto orgulho.
Quanto aos problemas de fundo da economia portuguesa, pouco será feito no sentido de aumentar a competitividade e a ineficiência de um Estado que gasta incrivelmente acima das suas possibilidades: a redução da taxa social única, facilidade nos despedimentos, diminuição do subsidio de desemprego (tempo e valor), ambiguidades no sentido de criar mais emprego para jovens, emprego invariavelmente precário parecem ser a panaceia para atenuar o problema da competitividade da economia portuguesa e atacar o desemprego. Por conseguinte, temos mais uma mão cheia de praticamente nada.
Paradoxalmente, o acordo é muito simpático para a banca que poderá contar com recapitalizações. A ver vamos se o financiamento volta às empresas.
Educação, saúde, justiça - a palavra de ordem é poupar. Mudanças que seriam da competência dos governos são poucas e como está visto se não forem impostas por fora não são executadas. Com uma possível e inefável reeleição de José Sócrates, tudo ficará na mesma e os problemas agravar-se-ão. De empréstimo em empréstimo, sem crescimento económico, rumo à falência. Poderia muito bem ser este o lema do primeiro-ministro demissionário, mas candidato a primeiro-ministro.
Finalmente, não se antevêem mudanças substanciais numa Administração Pública ineficiente e pesada que pretende esconder o seu anacronismo, a sua paixão pela burocracia e a sua absoluta ineficácia com pseudo-modernismos tão amados pelo primeiro-ministro. A partidocracia continuará a reinar porque não há Troika nenhuma no mundo que consiga fazer aquilo que só os portugueses podem fazer: deixar de escolher representantes que comprometem o nosso futuro colectivo, inseridos em partidos pejados de gente interesseira e incompetente. Enquanto continuarmos a depositar a nossa confiança nesta estirpe de políticos, não se podem almejar melhorias, muito pelo contrário.
Dir-se-á que não existem alternativas. Se assim é, passemos a equacionar a possibilidade de as criar!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O filme dos últimos anos

Numa altura em que se aguardam as medidas de austeridade que servem de contrapartida ao pedido de "ajuda" à Troika, importa analisar o filme dos últimos anos. Com efeito, é indiscutível que a grave crise que o país atravessa é também consequência da incapacidade que a Europa demonstrou ter para atenuar os efeitos de um ataque concertado ao euro e a voracidade inacreditável de mercados e agências de rating que, curiosamente, estiveram no cerne da crise de 2008.
Todavia, existem responsabilidades que não podem ser imputas em entidades externas. Embora a UE, designadamente a Zona Euro, demonstre não ter os instrumentos necessários para fazer face às crises do capitalismo financeiro, crises que se multiplicarão, o país também não demonstrou ter sentido de responsabilidade e visão de futuro.
Desde os governos do betão, os mesmos liderados por quem hoje fala do mar como um desígnio nacional, mas que foi conivente com a más políticas na agricultura e nas pescas, passando por todos os que lhe sucederem, o país foi-se afundando num misto de endividamento e ausência de crescimento. Pelo caminho não se procederam às reformas - as tão famigeradas reformas - que poderiam contribuir para um aumento da competitividade da economia e para a consolidação democrática.
Em Portugal, seguiu-se cegamente políticas de visão estreita. das quais a aposta no betão é o melhor exemplo. Construiu-se e endividou-se o Estado e as famílias. Pouco ou nada se fez para a comercialização de bens transaccionáveis, pouco ou nada se fez no sentido de aumentar a competitividade do país. Pelo caminho, a justiça, a administração pública e a educação foram conhecendo uma deterioração exasperante. Pelo caminho, transformou-se o Estado numa partidocracia, minada por compadrios e pela corrupção, enquanto convenientemente grassava a burocracia.
Hoje, o bom aluno da Europa é humilhado e enxovalhado. Hoje o país está endividado e sem perspectivas de crescimento. Hoje o país está entregue aos ditames daqueles que durante anos nos emprestaram dinheiro.
Não vale a pena olhar única e exclusivamente para os mercados e para a UE e responsabilizá-los apenas a eles, enquanto descuramos as nossas próprias responsabilidades. Todos falhámos, porque falhou o colectivo. É preciso ter a verticalidade necessária para assumi-lo. Falhámos porque acreditamos nas ilusões de que a vida era fácil, falhámos porque nos desinteressámos porque preferimos a ignorância e a ilusão. Em alturas de recessão adopta-se políticas de forte investimento, na linha da política orçamental que Keynes defendia, mas em alturas de crescimento económico, procurava-se equilibrar as contas públicas. Mas qual crescimento económico?
E o mais grave é que parece querermos continuar nesta senda de falhanços disfarçada numa espécie de alternância democrática que nos levou à pior crise de que à memória. O desinteresse e as ilusões continuam a encher as nossas vidas de vazio.

Um bom acordo

A declaração de José Sócrates com o objectivo de desmistificar algumas das medidas acordada com a Troika foi uma jogada de mestre. O acordo apelidado de "bom acordo" é largamente baseado naquilo que seria o PEC IV. O anúncio do primeiro-ministro de que o 13º. e 14º. mês serão pagos, a inexistência de despedimentos na Administração Pública, a inexistência de cortes em salários e pensões (cortes nas pensões só a partir do 1.500 euros) será o suficiente para muitos respirarem de alívio.
Convenhamos que o acordo, embora ainda não se saiba tudo, é menos negativo do que aquilo que se estaria à espera. Talvez os fracassos na Grécia e na Irlanda terão tido o seu papel a desempenhar em todo este processo.
Apesar de se ter conseguido mais tempo para combater o défice, os problemas de fundo mantêm-se e agravar-se-ão nos próximos anos de recessão. Seja como for em política o passado é rapidamente esquecido e tenta-se não pensar excessivamente no futuro. Nestas circunstâncias, o PS reforça a sua posição, mostrando que o PEC IV tinha toda a validade. Quem sai a perder é o PSD que fica com a sua imagem associada a umas eleições que parecem fazer cada vez menos sentido. As responsabilidades pela falta de competitividade da economia portuguesa associada a um endividamento insustentável vão continuar a ser esquecidas.