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Mensagens

As caricaturas da polémica

As caricaturas retratando o profeta Maomé, que há dois anos provocaram reacções do mundo islâmico, voltaram a ser publicadas em alguns jornais dinamarqueses. A publicação das polémicas caricaturas surge depois se conhecer um plano para assassinar um dos caricaturistas.
Há dois anos discutia-se vivamente a fronteira entre o respeito por uma religião e a liberdade de expressão que caracteriza indelevelmente os países democráticos. Desde logo, importa fazer referência à importância da liberdade de expressão que, mais do que ser característica dos países democráticos, é elemento indissociável do modo de vida ocidental, e quando posta em causa, origina reacções tempestuosas. Não seria de esperar outra coisa que não fosse a defesa veemente da liberdade de expressão por parte de quem faz uso dela diariamente e sente gratificação de viver num contexto onde essas liberdades efectivamente existem.
Não é de estranhar, portanto, que alguns jornais dinamarqueses fizessem valer a sua posição de defes…

O essencial fica por fazer

O Governo virou a página das reformas, e passou para o capítulo dos subsídios acompanhados pela indispensável propaganda. Assim, fica o essencial por fazer, adiando-se o futuro do país, e condenando os portugueses à eterna condição de remediados, quando não mesmo de pobres.
O Governo pode ter a pretensão de ter sido reformista, mas essa pretensão cai em saco roto quando se avalia a questão com maior minúcia. Com efeito, o Executivo de José Sócrates foi bem sucedido no que toca à sustentabilidade em matéria de segurança social, as reformas do Governo neste particular permitem olhar para o problema da sustentabilidade com outros olhos. Nem podemos subtrair ao actual Executivo o sucesso da redução do défice, embora os números mágicos só tenham sido conseguidos com recurso a um aumento exponencial da receita, ou dito de outro modo, com recurso a um aumento de impostos.
Mas a verdade é que muito ficou por fazer. Isto é tanto mais verdade quando se verifica o anúncio recorrente de políticas s…

Sindicalismo e novas realidades

Um dos mais notórios desequilíbrios do neoliberalismo é precisamente entre a força dos mercados e a fraqueza dos trabalhadores. A união de esforços de grandes multinacionais, a perda de instrumentos dos governos, a ausência de regulação das instâncias supranacionais e a ideia generalizada que o mercado toma conta de si próprio são características dos dias que vivemos. Os trabalhadores, em sentido inverso, têm dificuldades acrescidas em fazer valer os seus direitos, sendo bastante claro que esses direitos sofrem atropelos diários.
É com este pano de fundo que os sindicatos são de uma importância crucial para o regresso a um equilíbrio. Infelizmente, esse equilíbrio não tem sido conseguido, em larga medida porque existe uma tendência genérica para se desvalorizar o sindicalismo e para considerá-lo anacrónico e desfasado da realidade. Mais razões existem, portanto, para os sindicatos se regenerarem, encontrarem novas formas de luta, que sejam mais abrangentes, mais autónomos de partidos p…

Agitação em Timor-Leste

O atentado contra as vidas do Presidente timorense, José Ramos-Horta, e do primeiro-ministro, Xanana Gusmão, deixam mais dúvidas do que certezas. Terá sido a tentativa de um golpe de Estado? Por que razão os alvos foram Xanana Gusmão e Ramos-Horta, quando estes sempre tentaram dialogar com o major Reinado? Como é que se explica a facilidade com que os ataques foram perpetrados? Regista-se, para já, a morte do major Alfredo Reinado.
Os últimos dois anos têm sido particularmente difíceis para este jovem Estado independente. Recorde-se que Xanana Gusmão e José Ramos-Horta sempre enveredaram por uma via pacífica para chegarem à independência do território. Contudo, em 2006 eclodem revoltas no seio dos militares que se queixam de discriminação, esta crise de 2006 está longe de ter sido atenuada, e a instabilidade continua a vigorar no território. Ainda não há uma verdadeira coesão nacional, surgindo frequentemente a insatisfação de militares e das forças policiais.
No caso concreto, há que a…

O multiculturalismo de Rowan Williams

As declarações sobre a sharia (lei islâmica) proferidas pelo arcebispo de Cantuária provocaram grande celeuma no Reino Unido. Em síntese, o líder da igreja Anglicana defendeu a tese da inevitabilidade da sharia ser incorporada na lei britânica. Segundo esta visão multiculturalista do arcebispo, é inevitável que os muçulmanos que vivem no Reino Unido tenham a possibilidade de escolher entre a lei dos britânicos e sua própria lei. Mesmo que o arcebispo tenha defendido esta tese com base numa versão moderada da sharia, a ideia, só por si, é uma aberração.
As leis dos países aplicam-se a todos os cidadãos desses mesmos países, não faz qualquer sentido reivindicar diferenças com base em aspectos culturais ou religiosos. Se tal fosse possível, outros grupos poderiam reivindicar o direito a terem uma lei que se aplicasse exclusivamente a esses grupos, fossem eles religiosos ou não. As especificidades religiosas ou culturais têm de se coadunar com o sistema jurídico em vigor.
Rowan Williams, o …

O atoleiro

O atoleiro que dá título a este texto é o Iraque, ou mais concretamente a difícil situação do Iraque remete-nos para a imagem de um atoleiro. Esta designação não é nova, mas não deixa de ser inquietante, anos depois da intervenção militar americana no Iraque, verificar-se que a situação não melhorou, e que o Iraque continua a ser o já referido atoleiro.
Mais do que as discussões geopolíticas, o que é, de facto, importante não esquecer é a difícil situação do povo iraquiano apanhado no meio de uma incessante animosidade entre xiitas, sunitas e curdos, e vítimas dos intermináveis ataques terroristas levados a cabo por grupos extremistas, com ligação ou influência da Al-Qaeda.
Com efeito, muitos iraquianos, amiúde os mais capazes e com maior formação, abandonaram o país, deixando desta forma um vazio difícil de preencher e contribuindo, involuntariamente, para um adiamento do futuro deste país. Aqueles a quem não lhes foi permitido esse êxodo, continua a tentar sobreviver num país em que, …

Os males do costume

É frequente pensarmos sobre o estado do país, o seu atraso, a sua eterna relutância em encontrar o caminho do desenvolvimento, e não raras vezes questionamos sobre o que nos torna tão diferentes dos restantes povos europeus. As comparações entre a qualidade de vida dos cidadãos portugueses e dos cidadãos de outros Estados-membros são invariavelmente motivo de conversa.
A resposta não é simples. Contudo, é possível fazer um exercício de enumeração sobre o que está errado no nosso país, mesmo que essa enumeração não deixe de ser redutora. O Estado, desde logo, não permite que o país possa, rapidamente, inverter a situação que se tem agravado nos últimos anos. O primeiro passo passa inelutavelmente por responder à seguinte pergunta: que estado queremos? O Estado, para além de comportar as características nefastas conhecidas por todos – a sua dimensão e ineficácia –, acaba por redundar num óbice ao desenvolvimento. No essencial, o Estado é um ávido consumidor de recursos que, se fossem cer…